18 de março de 2011

Solar


"Minha mãe cozinhava exatamente:
Arroz, feijão-roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava."

(Adélia Prado)

Adélia Prado é brasileira.
Não sei porque sempre gostei de literatura portuguesa mais do que todas as matérias.
Já justifico que a poeta (hoje já não há mais distinção entre poeta e poetisa) é brasileira, no início, para ninguém confundir as coisas.
A última aula de literatura portuguesa foi incrível, nada como uma SMSS, mas foi incrível.
Acho que a maioria das pessoas que lerem esse poeminha, devem achar, no mínimo, sem graça, mas tem muita coisa a se extrair dele.
Primeiro. Tem características de poema romântico. Talvez pergunte: como? nem fala de amorzinho, mas fala.
Se dividirmos esse poema em duas partes, podemos fazer duas análises. uma social e outra psicológica.
'Minha mãe cozinhava exatamente:/ arroz, feijão-roxinho e molho de batatinhas', ao dizer que sua 'mãe cozinhava' o eu-lírico afirma a condição de sua família visto que cozinhar é uma tarefa doméstica que é realizada por empregados em casas de famílias ricas; neste caso a mãe cozinhava, ou seja, é possível que a família tenha uma renda tão mínima que além de não poder pagar uma empregada doméstica, ainda não tem dinheiro para comer fora. Não o bastante, os alimentos são de um cotidiano simples, e é exatamente aquilo que eles comem que os define, o cardápio não se altera e falta até o que popularmente é chamado de mistura. Socialmente esta família é de baixa renda e pertencente a uma das menores classes sociais existentes na sociedade, suprem suas necessidades e não há privilégios. Reparem na pontuação, ao falar dos alimentos, mesmo fazendo uso da palavra 'exatamente' que ao mesmo tempo que especifica o que vai vim a dizer, também pontua a frase, a poeta marca com dois pontos a sequência e no fim desta, a virgula antes do 'mas' que é uma locução adversativa, que gramaticalmente é esperada, é substituída por ponto final, ou seja, delimita o que foi dito e introduz um novo aspecto.
'Mas cantava'.
O cantar da mãe nos leva à uma interpretação psicológica, porque com a situação singela da família, tendo que cozinhar, o que o leitor espera é uma reação negativa de tudo isso, mas contrariamente ela canta. A mulher é feliz por ser mãe, por cozinhar, por ter o que comer e a expressão dessa felicidade é seu canto. A partir daí o titulo torna-se revelador de três maneiras, sendo a última minha preferida: 1) solar pode ser a junção das palavras só + lar, ou seja, a mãe é quem cuida, é a principal responsável pelo lar e está só em seu lar, nela se constrói toda a unidade do poema. Mas essa hipótese pode ser contestada pelo simples fato de que se há alguém narrando esse cotidiano e esse alguém não é a protagonista, no caso a mãe, esse alguém é seu filho, logo a mãe não estava só, alguém observa seu comportamento e o narra com certo tom de admiração. 2)solar pode ser compreendido como o truncamento das palavras sol + lar, o sol comumente representa alegria, luz e consequentemente paz, bem, é como se o que realmente importava no lar era o brilho do sol, representada na retórica do narrador que com o canto da mãe, consegue legitimar a ideia de que é possível viver em um lar humilde e ser feliz. 3) solar significa 'casa grande', parece contraditório afirmar em todo o poema a pobreza da família e colocar solar como titulo, mas se pensarmos que a alegria, a admiração, a educação que aquele lar recebia pela figura da mãe é equivalente a grandeza e ao luxo de um solar, subjetivamos o concreto em abstrato e independentemente do retrato humilde da familia o que acaba marcando mais, em todo o poema, é seu último verso 'Mas cantava', seja qual fosse o problema aquela mãe seria feliz porque o que importava era o que eles tinham e não o que não tinham.
O poema é tipicamente romântico por tratar da vida cotidiana, de elementos da natureza (sem restringir-se ao natural de paisagem, mas à cultura popular também), por expressar o que vem do coração sem obedecer as formas estruturais de um poema clássico, entre outros.

Pensar este poema me fez analisar a vida hoje.
Se voltarmos a autobiografia de Adélia Prado veremos que as informações do poema condizem, em outros poemas, com sua realidade de infância.
Observando a semana, podia ver o poema em minha vida. Mas já não estou na infância.
'Mas' é o que importa, lembrando que sempre o que faz a diferença é o que está depois do 'mas', a questão é que aqui dificilmente alguém aqui canta.
Que impacto teria o poema se fosse:

"Minha avó cozinhava exatamente:
arroz, feijão-roxinho e molho de batatinhas.
Mas meu avô permanecia preocupado
porque a comida alimentava MAS as contas não pagava."

Dessa maneira o poema deixaria de ser romântico e passaria a ser 'realista'.

Queria que o canto estivesse no fato de estarmos aqui e alimentados, afinal a mulher cantava e olha o que está nas lembranças de Adélia Prado e de todos nós.

"Moral da história: é possível ser feliz, depende de como você encara as coisas.'

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