18 de julho de 2017

encontros que transformam



(Antes de iniciar esse texto deixo o alerta, como narradora, que cada vez mais desacredito da existência do narrador onisciente. Diz-se que ele é onisciente porque sabe tudo o que acontece na história, inclusive os pensamentos de seus personagens, mas ele sabe apenas o que conta, o que não conta é o que não sabe e como não sei o que passa no pensamento dos personagens dessa história, alguns fatos ficarão um tanto descontínuos.)

Cecília e Verediana são amigas. Cecília é uma menina de poucos amigos, já Verediana está sempre rodeada de pesssoas, sempre sorrindo, sempre bem informada. As duas têm em comum o hábito de questionar, certamente questionariam o advérbio "sempre" que usei para caracterizar Verediana, pois, como disse Heráclito, todos mudam, seja o rio ou a pessoa que nele mergulha. É claro que tem dias que Cecília está sorrindo, rodeada de pessoas, e Verediana nem tanto, mas frequentemente as duas perguntam, perguntam e perguntam.

Por que o mundo é como é? Não seria eu, a narradora, que responderia essa pergunta que existe desde que o mundo é mundo, mas essas meninas se perguntam isso e querem encontrar pessoas que também fazem a mesma pergunta, pois juntas pensam melhor e podem mudar o mundo aos poucos, ou mudar o mundo uns dos outros. Com a efervescência da juventude e com o desejo de não perdê-la ao envelhecer, Cecília e Verediana procuram espaços para discutir, pensar propostas de educação e formação em direitos humanos, elas têm uma certeza fluída de que a mudança vem do povo, é popular.

Na última semana, as duas meninas, vistas por adultos como "esquerda gourmet" porque nunca sofreram na prática o que as minorias sofrem, participaram de um evento revolucionário. De fato elas nunca passaram fome, elas não sofreram preconceito por amar alguém do mesmo sexo ou por não reconhecer sua identidade ao corpo que têm (esqueci de descrevê-las fisicamente - achei que não teria importância e deixaria esse texto muito grande - Ceci é baixa e Vere é alta, Ceci tem cabelos lisos e Vere cabelos ondulados, o cabelo de ambas é curto e as duas são brancas, ou brancas acreditam ser, mesmo sendo afrodescendentes), mas isso não as impede de se posicionarem como esquerda política.

Voltemos ao evento revolucionário. "Revolucionário" é uma palavra interessante, pode ser substantivo ou adjetivo. Há quem seja 'O revolucionário' e há quem tenha atitudes revolucionárias e revolução é uma mudança brusca e violenta na economia e política de um Estado, agora quem pergunta sou eu: como fazer isso socialmente? Talvez essas personagens e o que aprendi com as discussões do evento tenham me despertado para instigar pessoas a serem revolucionárias, seja lendo meus textos ou participando das minhas aulas.

Disse anteriormente que o evento foi revolucionário porque parece raro na atual conjuntura - Brasil de Lula condenado, Bolsonaro podendo concorrer às eleições presidenciais, reforma trabalhista aprovada, assim como a pec 241 da contenção de gastos para educação e assistência social e a reforma do ensino médio, junto com a Escola sem Partido - que jovens questionem tudo isso. Há um mecanismo que envolve o jovem e o torna individualista e egocêntrico, pensando apenas no seu futuro e que ele tem que ser servido. Devo retornar à Cecília e Verediana porque estou deixando minhas opiniões interferir nessa história que não é minha.

As meninas escolheram suas palestras e entre encontros e desencontros no evento, sentiam-se tensas com o futuro, mas esperançosas por encontrar parceiros. O evento durou cinco dias, e ao findar cada dia, elas saiam com a mente fritando* (*não entendo bem o que significa fritando, é uma gíria que elas usam frequentemente e imagino que signifique, para esta ocasião, "pensar muito", "ficar instigado" ou "cheio de dúvidas". Se você for ao google verá que fritar é ficar alucinado na balada e isso elas não fazem faz muito tempo, parece que estão numa fase entre o suéter, o vinho e uma boa roda de conversa com poucos amigos, ao som de samba, mpb ou Beatles; acho que foi por isso que no último dia elas não foram ao Transarau). No café da noite, uma das conversas foi sobre ser negro. As meninas não se reconhecem negras porque não têm características físicas, mas será que esse critério basta? Ou elas não se reconhecem negras porque, já sabendo o preconceito que os negros sofrem, elas não querem se colocar nessa posição? Como elas lidam com o passado e a herança parental negra? Sendo afrodescendentes, mas sem sofrer o que os negros sofrem, elas poderiam se autodeclarar negras? Agora eu quase me sentiria um narrador onisciente, porque sei que elas pensaram nisso, mas não foi só isso. E isso não é pouco.

Cecília e Verediana não passaram desapercebidas. Seja pela atenção que prestaram à todas as discussões ou pela amizade que têm. As duas amigas participaram de um jogo chamado "De olho na escola" e ao se apresentar brincaram de batata-quente com a turma, há formas muito interessantes de tornar a escola um ambiente agradável e a aula dinâmica. Em um dos dias, entre todas as palestras que participaram, Cecília chegou atrasada e teve que falar seu nome; Alexandre, um dos voluntários do evento, lhe deu "Bom dia" e o guardou na memória. Os voluntários do evento deixaram Ceci encantada, pelo engajamento, pela discussão, pela juventude e dedicação, ela jamais vai esquecer o adolescente Muryel - transexual nominário - ela aprendeu com ele o que é ser "transexual nominário" com segurança. No dia seguinte, pensando no que lhe mais interessa, que é a privação de liberdade de adolescentes, Ceci teve o seguinte sentimento sobre a palestra "isso é para mim, eu quero aprender isso, eu quero lidar com esse público e andar com essa gente", e no final Alexandre lembrou seu nome. No mesmo dia, à tarde, a pergunta que ecoava em Ceci era "como pode o Estado negligenciar a educação de jovens e adultos?" ela lembrou do projeto que estava desenvolvendo com Verediana sobre ser alfabetizado com a própria história, e que ficou perdido em algum lugar do espaço-tempo. Este foi o "último dia", então Alexandre perguntou se Cecília e Verediana tinham se conhecido lá e se poderiam participar da divulgação de tudo que foi feito durante a semana. 

O encontro de Cecília e Verediana não aconteceu naquela semana, mas os encontros delas com Alexandre, Cris Moscou, Muryel, Juliane, Edneia, Denise, Roberto e todas as pessoas que estavam presentes naquela semana, foram encontros que transformam. Esqueci de dizer que a palavra revolução tem muitos significados (como uma boa pesquisadora de literatura fico muito atenta às palavras), um deles é a marcha circular dos corpos celestes no espaço, talvez por isso essas pessoas são tão iluminadas, e estão dispostas a circular quantas vezes for necessário, para que as minorias não fiquem para trás.

(Prazer, me chamo Cecília e quero me encontrar com você!)