28 de novembro de 2017

adolescência (bdd's)



dizer quem somos nunca é fácil.
vamos mudando conforme nossos encontros no tempo.
já escrevi sobre momentos da minha adolescência
e mesmo que essa fase tenha passado há algum tempo
cruzo com ela todo dia, isso me encanta.

o primeiro beijo e uma nova experiência
ou descoberta da sexualidade se dá na puberdade
algo tão prazeroso na contramão da escolha profissional.
deixar de ser cópia dos pais e ter uma identidade.
saber que o Real é mais real do se pensa.
estudar, estudar e querer sair da escola
uma prova insana que pode definir sua vida
presãããããããããão
dizer não
se apaixonar todo instante
reunir as amigas para lembrar das bobagens da infância
(fazer isso a vida toda porque toda fase tem bobagens)
rir.
falar uma língua que ninguém entende
sangrar feito um bode.
ir ao show do seu músico favorito
ter um grupo no qual todos querem entrar.
crises de ansiedade surgem para solidão.
servir
querer entender o sentido da vida
não entender o sentido da vida,
mas entender porque você está no mundo.
perceber que isso acontece quando nos relacionamos.

acho que amo ver vocês viverem. e fim.

7 de novembro de 2017

reconhecimento

conversando com a menina perguntei:
você é negra?
ela disse: acho que não.
pensei: como saber se alguém é negro ou branco
que isso importa?

acho que não sou negra porque tenho pele clara
mas seu cabelo é bem cacheadinho
é, meu pai é negro, mas nunca sofri preconceito
se é afrodescendente é negro?
aquela moça é branca, tem traços finos, mas disse que é negra

talvez eu seja negra, mas não estou pronta pra enfrentar
o que isso implica. não entendi porque aquela moça
disse que é negra. acho que não tem só a ver com o que se vê
é complicado, e se disserem que eu me apropriei da cultura?
conhecer, aceitar, superar, você não vai seguir sozinha.

feriado



no feriado de finados minha irmã e eu brigamos.
quando eu tinha 12 anos, minha irmã tinha seis.
em 2002, no brasil, houve um crime que chocou o país.
uma menina mandou matar os pais violentamente
e até hoje lembram do Caso Richthofen.

depois de brigar com minha irmã,
perguntei à minha mãe se éramos parecidas
e a resposta foi "sim, quando vocês têm uma opinião
são inflexíveis". quando pequenas diziam que éramos
parecidas, mas eu nunca achei e ao mesmo tempo achei

tem uma pergunta que reverbera na história e diz
"onde está o teu irmão?" e a resposta foi
"acaso sou eu responsável pelo meu irmão?"
as ironias dessas frases mostram que sim,
eu sou responsável, eu sei onde está

Richthofen não pensou que seu irmão
enlouqueceria com a morte dos pais
também não pensou que a morte de uma pessoa
é a morte de uma descendência, do que poderia vir
e a terra cobra o sangue de seus mortos.

durante muito tempo eu fiquei pensando
como um irmão pode matar outro irmão, mas nunca
pensei em matar minha irmã. - é importante dizer
eu fiquei bem triste com nossa briga, mas todo
feriado é assim, só que dessa vez não vou me desculpar

- vou assistir dragon ball!

Levantes




"Levantar" é um verbo transitivo, cujo a raiz vem do latim tardio levantare* e do latim levans*, é o particípio presente de levo, -are, erguer, elevar. Ao procurar sinônimos do verbo "levantar", uma das opções é "arvorar". Pois bem, pesquisando sobre essa palavra após visitar a exposição "Levantes", com curadoria de Georges Didi-Huberman, imagens distintas que se aproximam pelo movimento de elevar, subir, etc.

Quando o sol nasce, e nascer implica em vida, ele se levanta. Quando as plantas e vegetais crescem, eles se levantam, por isso um dos sinônimos é "arvorar". O movimento das águas do mar é erguer-se de forma sublime e cair continuamente, mesmo o cair não faz com que o mar perca sua impetuosidade, porque para se levantar é preciso cair. 

Uma das ações que caracteriza a rendição de presos é erguer as mãos para mostrar que não porta objetos ilegais, em seguida suas mãos são postas para trás e algemadas. O mesmo movimento de erguer as mãos é feito em momentos de contexto religioso, quando a comunidade está adorando ou fazendo preces, interessante é pensar como situações aparentemente tão distintas têm uma relação: levantar.

311 vezes o imperativo do verbo levantar aparece no novo testamento das escrituras sagradas: Levanta-te! Semanticamente é adequado o uso do verbo levantar quando Jesus ressuscita a filha de Jairo e diz "Menina, levanta-te" (Mc 5.41), pois a menina estava morta e os primeiros sinais que mostrariam seu retorno à vida, eram respiração e movimento. Quando Jesus cura o paralítico de Betesda, também é adequado dizer "Levanta, toma teu leito, e anda" (Mc 2.11), afinal a cura só seria visível se o paralítico se levantasse e andasse. Entretanto, quando Jesus cura o cego Ele também diz "Levanta-te" (Mc 10.49) e ao curar o leproso diz "Levanta-te e vai, a tua fé te salvou" (Lc 17.19). Mesmo quando o verbo levantar se torna substantivo "LEVANTES" ele ainda implica numa ação. 

Na exposição de Didi-Huberman duas performances chamavam a atenção, contudo não foi possível identificar o nome dos artistas. A primeira era uma fita de cetim vermelha, enrolada em um carretel que estava sobre um pequeno orifício no chão, de onde saía muita, muita ventilação. Em menos de dois minutos o vento desenrolou toda a fita, com movimentos de ginástica rítmica, mas sem nenhum humano - a primeira pergunta foi: quem é o artista? A fita ou o vento? A sensação visível era como ver os ossos secos de Ezequiel 37 se levantar com o sopro divino. A segunda era um copo de leite sobre a mesa, a mão do artista batia com força sobre a mesa e aos poucos o leite caía do copo, ao londo de inúmeras batidas, o copo de leite é derrubado; para cair é preciso estar erguido. Como o copo de leite são muitas as batidas que o humano leva para que caia.

O substantivo "levantes" é a reação de um povo ao lutar contra opressão. Ficou evidente que esse movimento necessariamente tem a ver com vida. Quando forças exteriores querem pôr fim a uma ideia, o povo se levanta. Há quem corte árvores e ainda sim elas se levantam. As águas do mar são poluídas, mas as ondas se levantam. Mesmo quando há queda, ela mostra a necessidade do levante. Ao reger uma orquestra o maestro levanta as mãos e a partir daí dá vida à música e harmonia à sua existência. Nesse sentido, quando a voz é alteada para mostrar autoridade, dá para entender porque Ele frequentemente dizia "Levanta-te" essa palavra ganha outro significado quando unida às imagens, o que Ele dizia era "Sua vida não vai ser a mesma, mesmo que caía, eu não estou só curando você, eu estou te dando nova vida: Levanta-te".

"Levantes" é uma exposição transdisciplinar sobre as emoções coletivas. São cinco os motivos para o espectador se levante: por elementos (desencadeados), por gestos (intensos), por palavras (exclamadas), por conflitos (abrasados) e por desejos (indestrutíveis). A imaginação ergue montanhas - alguém já disse isso sobre a fé - levantar-se é jogar longe o fardo que pesava sobre os ombros e entravava o movimento, é um sinal de esperança e de resistência, é um gesto e uma emoção, por isso não dá para fazer a revolução sem ir à direção do outro. Não dá para apenas levantar os dedos e digitar, é levantar todo o corpo, na sua inteireza e promover a vida.

O céu está pesado, acima de suas cabeças
mas sei bem que há apenas um céu
cobrindo toda a Terra:
ou seja, estamos em contato imediato
com o destino daquelas pessoas
Elas se caracterizam por uma total falta de ilusão
quanto à sua época e, amo mesmo tempo,
por uma incondicional adesão à ela.
Uma coisa é não se criarem ilusões
na obscuridade ou diante dos fantoches
do espetáculo imposto, outra, porém,
é dobrar-se na inércia mortífera submissão
A indestrutibilidade do desejo é algo
que nos faria, em plena escuridão,
buscar uma luz apesar de tudo
para quem está na floresta a luz de um vaga-lume
é bem vinda, assim como o som para o cego.
Os tempos sombrios só são tão sombrios
porque comprimem nossas pálpebras e ofuscam
o nosso olhar, como fronteiras que se impõem
em nosso corpo e pensamento.
Há formas para o levante, é um gesto sem fim
que precisa de força, sempre haverá
uma criança para pular o muro.

29 de agosto de 2017

ciúmes

não sei se o ciúmes está atrelado à desconfiança,
mas sei que, como ervas daninhas,
ambos são destrutivos para a plantinha que estamos cultivando.
há plantas que não podem ser plantadas no mesmo solo.

14 de agosto de 2017

auto-estima

(quando uma garota não acredita na sua beleza,
mesmo que haja sinais de que alguém se interessa por ela,
ela não acredita ser possível.)

ela pode ouvir ' qual o seu nome?'
e no dia seguinte ser chamada por 'ceci'
porque quem perguntou lembrou do seu nome,
mas isso é só boa memória.

numa roda de brincadeiras
quando alguém a olha e joga a bola,
depois de ter memorizado seu nome,
não é porque ela é bonita,
é porque ela estava quase na mesma direção dele.

se ela está numa palestra
e ele muda para sala da palestra dela
é porque onde ele estava o tema era chato.

no final, depois de dez segundos de olhares trocados,
ele desvia e ela se acha tonta.
quando ele a convida para gravar um vídeo sobre como foi a semana
ela diz não, porque outras pessoas serão mais interessantes do que ela.

18 de julho de 2017

encontros que transformam



(Antes de iniciar esse texto deixo o alerta, como narradora, que cada vez mais desacredito da existência do narrador onisciente. Diz-se que ele é onisciente porque sabe tudo o que acontece na história, inclusive os pensamentos de seus personagens, mas ele sabe apenas o que conta, o que não conta é o que não sabe e como não sei o que passa no pensamento dos personagens dessa história, alguns fatos ficarão um tanto descontínuos.)

Cecília e Verediana são amigas. Cecília é uma menina de poucos amigos, já Verediana está sempre rodeada de pesssoas, sempre sorrindo, sempre bem informada. As duas têm em comum o hábito de questionar, certamente questionariam o advérbio "sempre" que usei para caracterizar Verediana, pois, como disse Heráclito, todos mudam, seja o rio ou a pessoa que nele mergulha. É claro que tem dias que Cecília está sorrindo, rodeada de pessoas, e Verediana nem tanto, mas frequentemente as duas perguntam, perguntam e perguntam.

Por que o mundo é como é? Não seria eu, a narradora, que responderia essa pergunta que existe desde que o mundo é mundo, mas essas meninas se perguntam isso e querem encontrar pessoas que também fazem a mesma pergunta, pois juntas pensam melhor e podem mudar o mundo aos poucos, ou mudar o mundo uns dos outros. Com a efervescência da juventude e com o desejo de não perdê-la ao envelhecer, Cecília e Verediana procuram espaços para discutir, pensar propostas de educação e formação em direitos humanos, elas têm uma certeza fluída de que a mudança vem do povo, é popular.

Na última semana, as duas meninas, vistas por adultos como "esquerda gourmet" porque nunca sofreram na prática o que as minorias sofrem, participaram de um evento revolucionário. De fato elas nunca passaram fome, elas não sofreram preconceito por amar alguém do mesmo sexo ou por não reconhecer sua identidade ao corpo que têm (esqueci de descrevê-las fisicamente - achei que não teria importância e deixaria esse texto muito grande - Ceci é baixa e Vere é alta, Ceci tem cabelos lisos e Vere cabelos ondulados, o cabelo de ambas é curto e as duas são brancas, ou brancas acreditam ser, mesmo sendo afrodescendentes), mas isso não as impede de se posicionarem como esquerda política.

Voltemos ao evento revolucionário. "Revolucionário" é uma palavra interessante, pode ser substantivo ou adjetivo. Há quem seja 'O revolucionário' e há quem tenha atitudes revolucionárias e revolução é uma mudança brusca e violenta na economia e política de um Estado, agora quem pergunta sou eu: como fazer isso socialmente? Talvez essas personagens e o que aprendi com as discussões do evento tenham me despertado para instigar pessoas a serem revolucionárias, seja lendo meus textos ou participando das minhas aulas.

Disse anteriormente que o evento foi revolucionário porque parece raro na atual conjuntura - Brasil de Lula condenado, Bolsonaro podendo concorrer às eleições presidenciais, reforma trabalhista aprovada, assim como a pec 241 da contenção de gastos para educação e assistência social e a reforma do ensino médio, junto com a Escola sem Partido - que jovens questionem tudo isso. Há um mecanismo que envolve o jovem e o torna individualista e egocêntrico, pensando apenas no seu futuro e que ele tem que ser servido. Devo retornar à Cecília e Verediana porque estou deixando minhas opiniões interferir nessa história que não é minha.

As meninas escolheram suas palestras e entre encontros e desencontros no evento, sentiam-se tensas com o futuro, mas esperançosas por encontrar parceiros. O evento durou cinco dias, e ao findar cada dia, elas saiam com a mente fritando* (*não entendo bem o que significa fritando, é uma gíria que elas usam frequentemente e imagino que signifique, para esta ocasião, "pensar muito", "ficar instigado" ou "cheio de dúvidas". Se você for ao google verá que fritar é ficar alucinado na balada e isso elas não fazem faz muito tempo, parece que estão numa fase entre o suéter, o vinho e uma boa roda de conversa com poucos amigos, ao som de samba, mpb ou Beatles; acho que foi por isso que no último dia elas não foram ao Transarau). No café da noite, uma das conversas foi sobre ser negro. As meninas não se reconhecem negras porque não têm características físicas, mas será que esse critério basta? Ou elas não se reconhecem negras porque, já sabendo o preconceito que os negros sofrem, elas não querem se colocar nessa posição? Como elas lidam com o passado e a herança parental negra? Sendo afrodescendentes, mas sem sofrer o que os negros sofrem, elas poderiam se autodeclarar negras? Agora eu quase me sentiria um narrador onisciente, porque sei que elas pensaram nisso, mas não foi só isso. E isso não é pouco.

Cecília e Verediana não passaram desapercebidas. Seja pela atenção que prestaram à todas as discussões ou pela amizade que têm. As duas amigas participaram de um jogo chamado "De olho na escola" e ao se apresentar brincaram de batata-quente com a turma, há formas muito interessantes de tornar a escola um ambiente agradável e a aula dinâmica. Em um dos dias, entre todas as palestras que participaram, Cecília chegou atrasada e teve que falar seu nome; Alexandre, um dos voluntários do evento, lhe deu "Bom dia" e o guardou na memória. Os voluntários do evento deixaram Ceci encantada, pelo engajamento, pela discussão, pela juventude e dedicação, ela jamais vai esquecer o adolescente Muryel - transexual nominário - ela aprendeu com ele o que é ser "transexual nominário" com segurança. No dia seguinte, pensando no que lhe mais interessa, que é a privação de liberdade de adolescentes, Ceci teve o seguinte sentimento sobre a palestra "isso é para mim, eu quero aprender isso, eu quero lidar com esse público e andar com essa gente", e no final Alexandre lembrou seu nome. No mesmo dia, à tarde, a pergunta que ecoava em Ceci era "como pode o Estado negligenciar a educação de jovens e adultos?" ela lembrou do projeto que estava desenvolvendo com Verediana sobre ser alfabetizado com a própria história, e que ficou perdido em algum lugar do espaço-tempo. Este foi o "último dia", então Alexandre perguntou se Cecília e Verediana tinham se conhecido lá e se poderiam participar da divulgação de tudo que foi feito durante a semana. 

O encontro de Cecília e Verediana não aconteceu naquela semana, mas os encontros delas com Alexandre, Cris Moscou, Muryel, Juliane, Edneia, Denise, Roberto e todas as pessoas que estavam presentes naquela semana, foram encontros que transformam. Esqueci de dizer que a palavra revolução tem muitos significados (como uma boa pesquisadora de literatura fico muito atenta às palavras), um deles é a marcha circular dos corpos celestes no espaço, talvez por isso essas pessoas são tão iluminadas, e estão dispostas a circular quantas vezes for necessário, para que as minorias não fiquem para trás.

(Prazer, me chamo Cecília e quero me encontrar com você!)