29 de agosto de 2017

ciúmes

não sei se o ciúmes está atrelado à desconfiança,
mas sei que, como ervas daninhas,
ambos são destrutivos para a plantinha que estamos cultivando.
há plantas que não podem ser plantadas no mesmo solo.

14 de agosto de 2017

auto-estima

(quando uma garota não acredita na sua beleza,
mesmo que haja sinais de que alguém se interessa por ela,
ela não acredita ser possível.)

ela pode ouvir ' qual o seu nome?'
e no dia seguinte ser chamada por 'ceci'
porque quem perguntou lembrou do seu nome,
mas isso é só boa memória.

numa roda de brincadeiras
quando alguém a olha e joga a bola,
depois de ter memorizado seu nome,
não é porque ela é bonita,
é porque ela estava quase na mesma direção dele.

se ela está numa palestra
e ele muda para sala da palestra dela
é porque onde ele estava o tema era chato.

no final, depois de dez segundos de olhares trocados,
ele desvia e ela se acha tonta.
quando ele a convida para gravar um vídeo sobre como foi a semana
ela diz não, porque outras pessoas serão mais interessantes do que ela.

18 de julho de 2017

encontros que transformam



(Antes de iniciar esse texto deixo o alerta, como narradora, que cada vez mais desacredito da existência do narrador onisciente. Diz-se que ele é onisciente porque sabe tudo o que acontece na história, inclusive os pensamentos de seus personagens, mas ele sabe apenas o que conta, o que não conta é o que não sabe e como não sei o que passa no pensamento dos personagens dessa história, alguns fatos ficarão um tanto descontínuos.)

Cecília e Verediana são amigas. Cecília é uma menina de poucos amigos, já Verediana está sempre rodeada de pesssoas, sempre sorrindo, sempre bem informada. As duas têm em comum o hábito de questionar, certamente questionariam o advérbio "sempre" que usei para caracterizar Verediana, pois, como disse Heráclito, todos mudam, seja o rio ou a pessoa que nele mergulha. É claro que tem dias que Cecília está sorrindo, rodeada de pessoas, e Verediana nem tanto, mas frequentemente as duas perguntam, perguntam e perguntam.

Por que o mundo é como é? Não seria eu, a narradora, que responderia essa pergunta que existe desde que o mundo é mundo, mas essas meninas se perguntam isso e querem encontrar pessoas que também fazem a mesma pergunta, pois juntas pensam melhor e podem mudar o mundo aos poucos, ou mudar o mundo uns dos outros. Com a efervescência da juventude e com o desejo de não perdê-la ao envelhecer, Cecília e Verediana procuram espaços para discutir, pensar propostas de educação e formação em direitos humanos, elas têm uma certeza fluída de que a mudança vem do povo, é popular.

Na última semana, as duas meninas, vistas por adultos como "esquerda gourmet" porque nunca sofreram na prática o que as minorias sofrem, participaram de um evento revolucionário. De fato elas nunca passaram fome, elas não sofreram preconceito por amar alguém do mesmo sexo ou por não reconhecer sua identidade ao corpo que têm (esqueci de descrevê-las fisicamente - achei que não teria importância e deixaria esse texto muito grande - Ceci é baixa e Vere é alta, Ceci tem cabelos lisos e Vere cabelos ondulados, o cabelo de ambas é curto e as duas são brancas, ou brancas acreditam ser, mesmo sendo afrodescendentes), mas isso não as impede de se posicionarem como esquerda política.

Voltemos ao evento revolucionário. "Revolucionário" é uma palavra interessante, pode ser substantivo ou adjetivo. Há quem seja 'O revolucionário' e há quem tenha atitudes revolucionárias e revolução é uma mudança brusca e violenta na economia e política de um Estado, agora quem pergunta sou eu: como fazer isso socialmente? Talvez essas personagens e o que aprendi com as discussões do evento tenham me despertado para instigar pessoas a serem revolucionárias, seja lendo meus textos ou participando das minhas aulas.

Disse anteriormente que o evento foi revolucionário porque parece raro na atual conjuntura - Brasil de Lula condenado, Bolsonaro podendo concorrer às eleições presidenciais, reforma trabalhista aprovada, assim como a pec 241 da contenção de gastos para educação e assistência social e a reforma do ensino médio, junto com a Escola sem Partido - que jovens questionem tudo isso. Há um mecanismo que envolve o jovem e o torna individualista e egocêntrico, pensando apenas no seu futuro e que ele tem que ser servido. Devo retornar à Cecília e Verediana porque estou deixando minhas opiniões interferir nessa história que não é minha.

As meninas escolheram suas palestras e entre encontros e desencontros no evento, sentiam-se tensas com o futuro, mas esperançosas por encontrar parceiros. O evento durou cinco dias, e ao findar cada dia, elas saiam com a mente fritando* (*não entendo bem o que significa fritando, é uma gíria que elas usam frequentemente e imagino que signifique, para esta ocasião, "pensar muito", "ficar instigado" ou "cheio de dúvidas". Se você for ao google verá que fritar é ficar alucinado na balada e isso elas não fazem faz muito tempo, parece que estão numa fase entre o suéter, o vinho e uma boa roda de conversa com poucos amigos, ao som de samba, mpb ou Beatles; acho que foi por isso que no último dia elas não foram ao Transarau). No café da noite, uma das conversas foi sobre ser negro. As meninas não se reconhecem negras porque não têm características físicas, mas será que esse critério basta? Ou elas não se reconhecem negras porque, já sabendo o preconceito que os negros sofrem, elas não querem se colocar nessa posição? Como elas lidam com o passado e a herança parental negra? Sendo afrodescendentes, mas sem sofrer o que os negros sofrem, elas poderiam se autodeclarar negras? Agora eu quase me sentiria um narrador onisciente, porque sei que elas pensaram nisso, mas não foi só isso. E isso não é pouco.

Cecília e Verediana não passaram desapercebidas. Seja pela atenção que prestaram à todas as discussões ou pela amizade que têm. As duas amigas participaram de um jogo chamado "De olho na escola" e ao se apresentar brincaram de batata-quente com a turma, há formas muito interessantes de tornar a escola um ambiente agradável e a aula dinâmica. Em um dos dias, entre todas as palestras que participaram, Cecília chegou atrasada e teve que falar seu nome; Alexandre, um dos voluntários do evento, lhe deu "Bom dia" e o guardou na memória. Os voluntários do evento deixaram Ceci encantada, pelo engajamento, pela discussão, pela juventude e dedicação, ela jamais vai esquecer o adolescente Muryel - transexual nominário - ela aprendeu com ele o que é ser "transexual nominário" com segurança. No dia seguinte, pensando no que lhe mais interessa, que é a privação de liberdade de adolescentes, Ceci teve o seguinte sentimento sobre a palestra "isso é para mim, eu quero aprender isso, eu quero lidar com esse público e andar com essa gente", e no final Alexandre lembrou seu nome. No mesmo dia, à tarde, a pergunta que ecoava em Ceci era "como pode o Estado negligenciar a educação de jovens e adultos?" ela lembrou do projeto que estava desenvolvendo com Verediana sobre ser alfabetizado com a própria história, e que ficou perdido em algum lugar do espaço-tempo. Este foi o "último dia", então Alexandre perguntou se Cecília e Verediana tinham se conhecido lá e se poderiam participar da divulgação de tudo que foi feito durante a semana. 

O encontro de Cecília e Verediana não aconteceu naquela semana, mas os encontros delas com Alexandre, Cris Moscou, Muryel, Juliane, Edneia, Denise, Roberto e todas as pessoas que estavam presentes naquela semana, foram encontros que transformam. Esqueci de dizer que a palavra revolução tem muitos significados (como uma boa pesquisadora de literatura fico muito atenta às palavras), um deles é a marcha circular dos corpos celestes no espaço, talvez por isso essas pessoas são tão iluminadas, e estão dispostas a circular quantas vezes for necessário, para que as minorias não fiquem para trás.

(Prazer, me chamo Cecília e quero me encontrar com você!)


6 de junho de 2017

Marias

Caros amigos,

Meu nome é Maria de Nazaré
casei virgem e grávida
ouvia os cochichos maldosos dos vizinhos a meu respeito
e ouvia todos eles elogiarem josé, meu marido
por assumir um filho que não era dele.
quem acreditaria que meu filho era do senhor?
demorou para reconhecerem que fui uma adolescente
corajosa e cheia de fé, por aceitar ser mãe do salvador.
não digo por orgulho, mas no futuro muitos vão me admirar
e ainda sim serão condenados porque sou apenas uma imagem.
No mar meu filho chamou seus filhos
e eu cuido dos pescadores de almas.
mães de pele negra
que contrasta com o vestido branco rodado
em vocês vejo a alegria de dançar sobre as águas.
vejo o sopro da Ruah divina que movimenta suas saias.
e vejo a tristeza de ter um filho morto como o meu.
meninas adolescentes, grávidas, sozinhas.
eu lhes ofereço abrigo, seguimos juntas, Marias.

Meu nome é José Maria
eu sou artista de rua
e o personagem que mais gosto de representar
é Maria, mãe de Jesus.
minha mãe morreu há anos e meu pai nunca conheci.
eu gosto do meu nome, apesar de ser caçoado
porque sou um homem com nome de Maria.
na rua, quando atuo, os homens não se aproximam,
me chamam de marica, mas crianças ficam curiosas
e as mulheres se emocionam,
assim não me sinto só,
sou José, mas gosto de ser Maria.
Seguimos juntas.

Meu nome é Maria (da Penha)
minha mãe me deu o nome de Maria
porque a mãe de Jesus se chamava Maria.
e no meu país tem mais de 11,5 milhões de Marias,
se é comum, se é religioso, não sei, mas é força.
eu tenho três filhas, não as impeço de serem livres.
mas a liberdade pode trazer o preço do abuso
e isso me dá medo, mas ainda ainda acredito no amor.
Desejo que minhas meninas se casem com homens
diferentes de seu pai. Sem tiro, sem eletrochoque
do seio da terra as Marias se levantam e lutam
por direitos iguais e justiça. Seguimos juntas

Um abraço esperançoso,
de quem carrega Maria no nome.

20 de maio de 2017

poema chuvoso

no dia em que nasci, chovia.
inexplicavelmente todo aniversário meu chove
quando eu era criança diziam
cê tem bruchove? e eu respondia não,
mas a pergunta era 'setembro chove?'
'chove', mas agora é maio.
aquele que faz chover
compartilha a minha alheia melancolia
é como se de gota em gota
des
ces
se
uma parte de mim
de encontro com a terra e florescesse.
vamos tomar café,
(adultos tomam café)
comer bolinho de chuva
e prosear?
em frente à janela,
observamos cair água do céu.
parece fazer frio lá fora,
mas aqui dentro, bem lá dentro
é TEMPESTADE.
ao me ouvir, você seca meu chão.

a mulher que não tinha amigas

há muitos, muitos anos atrás
a mulher tinha amigas e amigos
eles cuidavam da sua casa,
do seu imenso jardim,
banhavam-se na sua piscina,
mas a conservam limpa.
eles também administravam
toda sua fortuna
e tudo caminhava muito bem,
a relação deles era de confiança.
um dia chegou uma mulher
muito poderosa, fingindo ser amiga
da nossa personagem principal.
ela expulsou da casa da outra,
todos os seus amigos.
tomou para si suas riquezas e partiu,
deixando seus empregados dominando
a pobre mulher.
com o passar do tempo,
cada um de seus amigos e amigas
foi sendo dizimado.
passados muitos, muitos anos
chegaram outras três mulheres
que disseram à nossa querida mulher
que no terreno de sua casa
havia terra fértil, que poderia produzir.
então ela voltaria a ser rica.
pobre mulher! elas não mentiram,
mas usaram seu terreno e também partiram,
com todos os bens que a terra lhes dera.
mais alguns anos se passaram.
vieram homens maus e abusaram
das filhas da mulher.
se as meninas discordavam,
se expressavam,
os homens violentavam cada uma delas
então muitas partiram
pra nunca mais voltar.
a história da mulher
ficou manchada de sangue e lágrimas.
cheia de fragilidade,
a mulher confiava em qualquer um.
agora, num passado bem presente,
quem prometeu ajudá-la,
tirou o restinho de dinheiro
que estava em sua poupança.
ela se vê só e sem esperança.
pobre mulher, só teve amigos
no início de sua história.
ao seu redor só se ouve as fofocas,
'como ela sairá dessa crise?'
'se ela tivesse escutado as filhas que partiram, 

não estaria nessa situação'
pobre mulher sem amigas!
está com a casa desconstruída,
imersa em ruínas,
pensando como sobreviver
a sua própria tragédia.