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20 de março de 2012

Poeminha inspirado por Álvaro de Campos, na aula de literatura portuguesa

Depois de vários minutos
Mesmo sem a história da galinha
Olha só, até a Marizinha
Boceja e reclama de sono
Não aguentamos mais tanto comentário
Que, com pretensão de ser hilário
Só nos faz pensar: "Que bando de otários!"

Eis que realizo um sonho:
a cada aula um poema componho

Como não encontrar inspiração
Enquanto o fim da aula aguardamos com tensão?

(Gabriele Borges)

Guarulhos, 19 de Março de 2012.

29 de junho de 2011

Conquista


"Os degraus
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo..."

(Mário Quintana)


Eu subi. Realizei. IC concluída, Paloma querida :)

18 de março de 2011

Solar


"Minha mãe cozinhava exatamente:
Arroz, feijão-roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava."

(Adélia Prado)

Adélia Prado é brasileira.
Não sei porque sempre gostei de literatura portuguesa mais do que todas as matérias.
Já justifico que a poeta (hoje já não há mais distinção entre poeta e poetisa) é brasileira, no início, para ninguém confundir as coisas.
A última aula de literatura portuguesa foi incrível, nada como uma SMSS, mas foi incrível.
Acho que a maioria das pessoas que lerem esse poeminha, devem achar, no mínimo, sem graça, mas tem muita coisa a se extrair dele.
Primeiro. Tem características de poema romântico. Talvez pergunte: como? nem fala de amorzinho, mas fala.
Se dividirmos esse poema em duas partes, podemos fazer duas análises. uma social e outra psicológica.
'Minha mãe cozinhava exatamente:/ arroz, feijão-roxinho e molho de batatinhas', ao dizer que sua 'mãe cozinhava' o eu-lírico afirma a condição de sua família visto que cozinhar é uma tarefa doméstica que é realizada por empregados em casas de famílias ricas; neste caso a mãe cozinhava, ou seja, é possível que a família tenha uma renda tão mínima que além de não poder pagar uma empregada doméstica, ainda não tem dinheiro para comer fora. Não o bastante, os alimentos são de um cotidiano simples, e é exatamente aquilo que eles comem que os define, o cardápio não se altera e falta até o que popularmente é chamado de mistura. Socialmente esta família é de baixa renda e pertencente a uma das menores classes sociais existentes na sociedade, suprem suas necessidades e não há privilégios. Reparem na pontuação, ao falar dos alimentos, mesmo fazendo uso da palavra 'exatamente' que ao mesmo tempo que especifica o que vai vim a dizer, também pontua a frase, a poeta marca com dois pontos a sequência e no fim desta, a virgula antes do 'mas' que é uma locução adversativa, que gramaticalmente é esperada, é substituída por ponto final, ou seja, delimita o que foi dito e introduz um novo aspecto.
'Mas cantava'.
O cantar da mãe nos leva à uma interpretação psicológica, porque com a situação singela da família, tendo que cozinhar, o que o leitor espera é uma reação negativa de tudo isso, mas contrariamente ela canta. A mulher é feliz por ser mãe, por cozinhar, por ter o que comer e a expressão dessa felicidade é seu canto. A partir daí o titulo torna-se revelador de três maneiras, sendo a última minha preferida: 1) solar pode ser a junção das palavras só + lar, ou seja, a mãe é quem cuida, é a principal responsável pelo lar e está só em seu lar, nela se constrói toda a unidade do poema. Mas essa hipótese pode ser contestada pelo simples fato de que se há alguém narrando esse cotidiano e esse alguém não é a protagonista, no caso a mãe, esse alguém é seu filho, logo a mãe não estava só, alguém observa seu comportamento e o narra com certo tom de admiração. 2)solar pode ser compreendido como o truncamento das palavras sol + lar, o sol comumente representa alegria, luz e consequentemente paz, bem, é como se o que realmente importava no lar era o brilho do sol, representada na retórica do narrador que com o canto da mãe, consegue legitimar a ideia de que é possível viver em um lar humilde e ser feliz. 3) solar significa 'casa grande', parece contraditório afirmar em todo o poema a pobreza da família e colocar solar como titulo, mas se pensarmos que a alegria, a admiração, a educação que aquele lar recebia pela figura da mãe é equivalente a grandeza e ao luxo de um solar, subjetivamos o concreto em abstrato e independentemente do retrato humilde da familia o que acaba marcando mais, em todo o poema, é seu último verso 'Mas cantava', seja qual fosse o problema aquela mãe seria feliz porque o que importava era o que eles tinham e não o que não tinham.
O poema é tipicamente romântico por tratar da vida cotidiana, de elementos da natureza (sem restringir-se ao natural de paisagem, mas à cultura popular também), por expressar o que vem do coração sem obedecer as formas estruturais de um poema clássico, entre outros.

Pensar este poema me fez analisar a vida hoje.
Se voltarmos a autobiografia de Adélia Prado veremos que as informações do poema condizem, em outros poemas, com sua realidade de infância.
Observando a semana, podia ver o poema em minha vida. Mas já não estou na infância.
'Mas' é o que importa, lembrando que sempre o que faz a diferença é o que está depois do 'mas', a questão é que aqui dificilmente alguém aqui canta.
Que impacto teria o poema se fosse:

"Minha avó cozinhava exatamente:
arroz, feijão-roxinho e molho de batatinhas.
Mas meu avô permanecia preocupado
porque a comida alimentava MAS as contas não pagava."

Dessa maneira o poema deixaria de ser romântico e passaria a ser 'realista'.

Queria que o canto estivesse no fato de estarmos aqui e alimentados, afinal a mulher cantava e olha o que está nas lembranças de Adélia Prado e de todos nós.

"Moral da história: é possível ser feliz, depende de como você encara as coisas.'