a real é que eu me pego pensando quem eu sou pra um monte de gente e é demais saber que para cada um eu sou uma, nunca a mesma. eu já pensei que pra você eu fui muita gente e nada ao mesmo tempo. acho que você já pensou que eu me interessei por você. às vezes me convenço de que você me achava incrível, mas não era possível acontecer nada. ora eu estava no passado, você no presente, fora do tempo apenas um véu nos separava. eu podia sentir o seu toque, ouvir suas risadas, até ver suas expressões faciais icônicas, mas um véu tem a mesma força do tempo. a gente permanece longe, mesmo perto. a gente nunca foi a gente. a gente tem mais pergunta que resposta.
14 de outubro de 2020
11 de agosto de 2020
enquanto procurava por você no instagram
pensou se procurou por ela também.
não ao mesmo tempo,
porque estão em tempos diferentes
continuamente, num ciclo sem fim.
quando se ausentou só queria sentir falta
estava toda preenchida
de informações sufocantes e inúteis
então desistiu até de você e fez bem.
mas agora sente a falta
mesmo vivendo na mesma cidade
sendo seguidores mútuos
compartilhando grupo de whatsapp,
mas sem nenhum assunto.
presa em casa queria foto sua no instagram
29 de julho de 2020
pré-história
quando criança
investia horas do dia
a pensar porque
céu e mar são azuis
e se sempre foram assim.
quando adolescente
as cores já não importavam
a dúvida era o que é céu
mar e sempre, além do que
a ciência responde.
durante muito tempo
a pré-história foi o período
no qual ainda não havia
escrita e o uso de metais.
mas estranhamente
é como se a humanidade
estivesse em pré-história.
à expectativa de que ela inicie
à iminência de tocar os afetos
à espera de que a tela
- desconhecida dos selvagens -
deixe de mediar as relações
civilizadas
enquanto anelo
volto a pensar por que
céu e mar são azuis
para mantê-los
assim
como a criança que há em mim
ao pintar em uma rocha
em uma folha
em outra tela
um novo mundo.
28 de maio de 2020
amizade
então me perguntou
o que eu gostaria de dizer
daqui há 48 anos
respondi que, como tony e aracy,
queria que fôssemos amigos
por todo esse tempo
24 de maio de 2020
imagens
1. Intelectual
é quem posta foto
de estante de livros
e bebe vinho
2. Natural
é quem posta foto
de mato, vestimenta roots
e não come carne
3. Ativista
é quem posta foto
de manifestação
e apanha por uma causa
4. Artista
é quem posta foto
de riscos que ninguém entende
e apaga se muitos curtirem
5. Carente
é quem posta foto
de tudo e apaga
se ninguém curtir
6. Crente
é quem posta foto
de mensagem de fé
ou criticando o povo pra ir à igreja
7. Influencer
é quem posta foto
da vida perfeita e ganha dinheiro
para enganar o carente
é quem posta foto
de estante de livros
e bebe vinho
2. Natural
é quem posta foto
de mato, vestimenta roots
e não come carne
3. Ativista
é quem posta foto
de manifestação
e apanha por uma causa
4. Artista
é quem posta foto
de riscos que ninguém entende
e apaga se muitos curtirem
5. Carente
é quem posta foto
de tudo e apaga
se ninguém curtir
6. Crente
é quem posta foto
de mensagem de fé
ou criticando o povo pra ir à igreja
7. Influencer
é quem posta foto
da vida perfeita e ganha dinheiro
para enganar o carente
rastro
"você apagou esta mensagem"
mas, embora você não tenha dito
o queria dizer, todos sabem
que você disse algo
a mensagem não é de fato apagada.
mas, embora você não tenha dito
o queria dizer, todos sabem
que você disse algo
a mensagem não é de fato apagada.
6 de maio de 2020
1. fronteiras
em 19 de janeiro de 2020 Cléber e eu saímos de Berlim à Praga e, como de costume, eu perguntei "o que aconteceu de importante no mundo hoje?" e ele respondeu que um vírus se alastrava na China. nós entendemos que aquilo que recebemos em valor monetário é fruto do nosso trabalho e nos ajuda a para pagar as contas, servir pessoas, jamais acumular e descansar. nessa viagem podemos conhecer também Munique, Barcelona e Paris, nos 20 dias que passamos na Europa ninguém parecia assustado com a notícia do vírus, mas ao retornar de Paris para São Paulo, mais da metade dos passageiros usavam máscaras e talvez aquele tenha sido o primeiro sinal aparente do que estava acontecendo. a China já não parecia tão distante. em seguida, eu fiquei doente e quando descrevi meus sintomas citando que estava fora, fui isolada e fiz uma série de exames que constataram que eu tinha uma virose, mas não era covid-19.
todas as nossas viagens são surpreendentes, mas essa foi muito especial, sobretudo ao pensar que hoje muitas fronteiras estão fechadas e ninguém tem certeza de quando tudo voltará ao normal. e se o normal for como antes, espero que não volte. digo isso porque o vírus não tem fronteiras e ele chegou à Terra muito antes de nós, quando tudo era a pangeia, o vírus mostrou que seja território ou socialmente as fronteiras estão na nossa imaginação, o que existe é apenas o humano e é ele quem morre. enquanto insistirmos em demarcar limites que nos separam a xenofobia, o racismo, o classismo, vai continuar matando mais, mesmo depois que o humano criar uma vacina que erradique o vírus. está tudo interligado.
2. luto e melancolia
sabe aquele dia que o coração aperta e você sente muita vontade de chorar, mas não sabe nomear o porquê? "luto e melancolia" é o título de um texto escrito por Freud, em 1917. nele, o autor apresenta as semelhanças entre os dois estados da psique humana: o desânimo profundo, a cessação de interesse pelo mundo e a inibição de atividades; mas a origem de ambas se distingue, o luto implica a morte do ser amado e a melancolia provém de uma baixa auto-estima e da auto-recriminação. há pessoas que, como eu, são mais propensas a sentir a dor do outro de modo exacerbado (eu gosto de ser assim, significa que ainda há sensibilidade em mim). a morte é tão incontrolável, sobretudo àqueles que ficam e têm de lidar com a ausência, que rituais de passagem são fundamentais para nossa sobrevivência. os vikings colocam os corpos no mar em barcos flamejantes, os budistas cremam, os egípcios mumificam, os mexicanos fazem festa, nós velamos, enterramos na terra e silenciamos. as palavras não podem domesticar a morte e é por isso que hoje eu chorei, porque "e daí" é a desumanização, é o ego absoluto. nas minhas relações ninguém morreu, mas já morreram mais de 5000 e quando um morre, morre uma descendência. muitas famílias sofrem suas perdas, sem a despedida e enquanto a terra clama por justiça, nós cuidamos uns dos outros, de todos, e reaprendemos a cuidar dela também.
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