7 de novembro de 2013

árvore

ela respira
ela expira
ela inspira
e pira
ao desnudar-se
de suas folhas.
é tempo novo!
veste camiseta
verde, calça
marrom, põe
brinco de cereja.
nos pés
rasteira de tiras
que a enraíza
ela sou eu.



6 de novembro de 2013

desgosto



importava-se com a opinião alheia
importava-se tanto que os comentários
a prendiam numa cadeia invisível
os outros a viam como adversária
e desde aquele agosto, tudo é suposto
sem ao menos dar-lhe o direito à palavra
ouve-se pelos corredores o cochicho
e enquanto uns dizem: "não liga pra isso."
a contragosto ela permanece submissa
à plateia que a trata como bicho
seu silêncio é como cilício para outros
mas incidem violentamente sobre ela
almejando destruir aquilo que imaginam
ser um artifício (que não é)
sobre o livro ela firma o compromisso
de ensurdecer-se, pois já está muda
deseja a paz, mas cuspam-lhe o rosto
sente-se incapaz de ignorar o que vê: risos
precisa de ajuda, uns escrevem: "esqueça-os"
mas a memória não permite, há imagem
o duplo desgosto é inexplicável, então
aceita o convite para o lugar imprevisto
lá, toca a placa que em braille diz:
"seja bem-vinda, você é amável".

16 de outubro de 2013

Pega-pega



caíam em pé, corriam deitadas
diante do vidro eu observava
uma atrás da outra gritava:
"_Lá vou eu!" e todas disparadas
disputavam o primeiro lugar.
aos poucos ficaram cansadas
e o sol veio a brincadeira acabar
no fim da minha viagem de trem,
já não havia nenhuma gotinha
que pudesse me pegar.
Ganhei!

9 de outubro de 2013

Mutação

ela é ela
ele é ele
ela não é ele
ele não é ela
ela quer ser ele
ele quer ser ela
ela agora é ele
ele agora é ela
          SEXO.

30 de setembro de 2013

Europa


Lá vai ele, a Europa o espera e ele nada espera. Tão simples, deseja saber o que os outros querem de lá, enquanto ele só deseja voltar com um globo de neve. Nada de segurar a Torre de Pisa, nada de esperar a meia noite olhando o Big Ben, sozinho: nada de passear pelas gôndolas de Veneza, nada de conhecer o palácio de Versalles, nada de visitar Auschiwtz. Nada. Quer apenas aprender. O mundo só tem graça quando uma pessoa está por perto. Em meio ao sentimento do nada estão múltiplas expectativas. Uma mala cheia de sonhos, com um futuro que a  viagem pode deixar mais bonito. Estar entre o espaço e o tempo é o hermetismo da vida.


Marcas


Era um senhor negro, de  bigode, tão calvo que sua teste parecia ter dez centímetros. Em seu pescoço havia um colar, usava camisa vermelha, calça e sapato social, e uma jaqueta de esporte. Usava óculos e franzia a testa numa expressão ranzinza, mas no fundo seu olhar era muito doce. Suas mãos batiam no joelho em ritmo de samba, quando não a mão, o pé acompanhava. Não sei qual canção tocava em sua mente. Não sei se seu nome era Noel, Adoniram ou Zé, sei apenas que ele tinha um nome o qual não sei. E uma história. Uma história que, se não foi bonita até agora, desejo que seja.  

Futuro


O futuro mora logo ali. O futuro é alto, gordinho e barbudo. O futuro tem cara de mau, mas no fundo é bonzinho. Sorri. O futuro veste-se de forma engraçada, usa um relógio roxo com um bonequinho no visor, calça social, camisa xadrez, tênis vermelho e uma mochila de skatista. O futuro desejou-me boa sorte e então saí. O futuro e eu moramos no mesmo lugar e de cá pra lá são 100 km. Lá é diferente de cá, mas o futuro está nos dois lugares ao mesmo tempo. Lá é arborizado, de grande extensão e cheio de livros, para um grupo seleto de pessoas. Cá é movimentado, tem cimento por todo lado, é grande, mas sem espaço e muito heterogêneo. O futuro me aguarda para falarmos de uma moça que escreve poemas. O futuro e eu gostamos do que ela escreve, de suas discussões e reflexões, é ele quem vai guiar meu pensamento sobre o que ela escreve ou não escreve. O futuro poeta e ela poeta vê, ouve, fala o que todos vêem e não percebem. Ah, o futuro, espero que correspondamos as expectativas um do outro.