numa sala há 36 pessoas
duas delas são biologicamente homens
as demais são biologicamente mulheres
três pessoas são negras
treze pessoas usam óculos
trinta pessoas falam sem parar.
o supervisor pede um leitor voluntário
uma moça com blusa de gatos
com braços arranhados por gatos
sempre quer ler,
mas diz que quando ganhar na mega-sena
não fará mais isso.
dentre os calados há uma moça
de coluna curva, jovem, com coque
ela se esconde atrás do caderno de redações,
muitas mostram sua vaidade nas luzes capilares.
há quem faz perguntas que não levam a nada
todos têm o futuro de outros nas mãos
e por isso recebem $1,50.
23 de novembro de 2016
Trabalho
da série: conversas com o Isaac
- Isaac, o que você vai fazer quando crescer?
- Trabalhar.
- Eu sei, quero saber com o quê?
- Eu vou ser cientista.
- Sério? Por quê?
- Porque eu gosto de saber dos planetas, do sol, do universo. Sabia que em dezembro vamos ter seis dias totalmente escuros e uma super lua maior que todas?
- Eu não sabia, como você sabe? Sua professora disse?
- Não, ela não disse. Eu fui no google e digitei "notícias da Nasa" aí fui lendo.
- Legal.
- Lembra quando eu era bem criança e perguntei por que você era adulta e não trabalhava?
- Claro que lembro rs.
- Foi engraçado. Você disse bem brava "Isaac, eu trabalho sim, eu sou pesquisadora"
- E você disse: "pesquisador só fica em casa? Então quero ser pesquisador" rs
- É. Eu achava que você ia ser escritora, porque você vive lendo, conta muitas histórias e tem muitos livros.
- Quem sabe você vai descobrir coisas do universo e eu vou criar outros?
- É, acho que a diferença do pesquisador para o cientista é que você viajou pra Argentina, eu vou pra Marte e pra Lua.
31 de outubro de 2016
pergunta
o filho pergunta à mãe:
mãe, por que você não tem pinto?
o filho pergunta à mãe:
mãe, por que meu gato morreu?
o filho pergunta à mãe:
mãe, por que aquele homem beija outro homem?
o filho pergunta à mãe:
mãe, por que tem gente que mora na rua?
o filho pergunta à mãe:
mãe, por que o filho do porteiro nunca viajou de avião?
o filho pergunta à mãe:
mãe, por que não é bom que o crivella ganhe a eleição?
o filho pergunta à mãe:
mãe, cadê meu pai?
mãe, por que você não tem pinto?
o filho pergunta à mãe:
mãe, por que meu gato morreu?
o filho pergunta à mãe:
mãe, por que aquele homem beija outro homem?
o filho pergunta à mãe:
mãe, por que tem gente que mora na rua?
o filho pergunta à mãe:
mãe, por que o filho do porteiro nunca viajou de avião?
o filho pergunta à mãe:
mãe, por que não é bom que o crivella ganhe a eleição?
o filho pergunta à mãe:
mãe, cadê meu pai?
20 de outubro de 2016
chove em sp
chove
chuvinha
chuvisco,
garoa no
coração.
coração muito
aquecido
incendeia
não pegue
fogo, não.
num muro
estava escrito
"se for eleito
presidente
amantes não
se separarão"
é capaz que
quem escreveu
ganhe a eleição.
se chove muito
alaga
se pega fogo
restam cinzas.
e agora coração?
não tenha
medo, não.
cada amor
cada estação
faz sua saudação
é calor
é frio
é flor
é vento.
ventoso
ventania
há um vendaval
no coração,
que chora
de tanta emoção
por isso chove.
chuvinha
chuvisco,
garoa no
coração.
coração muito
aquecido
incendeia
não pegue
fogo, não.
num muro
estava escrito
"se for eleito
presidente
amantes não
se separarão"
é capaz que
quem escreveu
ganhe a eleição.
se chove muito
alaga
se pega fogo
restam cinzas.
e agora coração?
não tenha
medo, não.
cada amor
cada estação
faz sua saudação
é calor
é frio
é flor
é vento.
ventoso
ventania
há um vendaval
no coração,
que chora
de tanta emoção
por isso chove.
pureza
da série: diálogos com isaac
- isaac, posso fazer uma enquete com você?
- pode, o que é enquete?
- é quando uma pessoa faz um monte de perguntas nada a ver para outra.
- tá bom.
- qual sua comida favorita?
- sopa.
- qual seu lugar favorito?
- ceará.
- quem é a pessoa que você mais ama no mundo?
- meu pai e minha mãe igual, não fica triste, tá?
- qual sua matéria favorita?
- ciências.
- o que você quer ser quando crescer?
- médico.
- quem é a pessoa que você mais odeia no mundo?
- (pensa, pensa, pensa) não odeio ninguém.
- nem aqueles meninos chatos da escola?
- não, não odeio eles. tenho pena, eles são bobos, mas não precisa odiar...
17 de outubro de 2016
rosa
quando o algodão doce do céu
tem sabor de morango
tem aquele mistinho de doce com amargo,
fruto da união do vermelho feminino
com o branco masculino,
o sol torna-se desnecessário.
tem sabor de morango
tem aquele mistinho de doce com amargo,
fruto da união do vermelho feminino
com o branco masculino,
o sol torna-se desnecessário.
quando o poeta diz que logo
a luz não será necessária
porque sua luz ilumina tudo,
eu imagino isso: um ambiente todo cor de rosa,
rosa de um jeitinho raro de ver,
é a despedida dos luminares do céu.
a luz não será necessária
porque sua luz ilumina tudo,
eu imagino isso: um ambiente todo cor de rosa,
rosa de um jeitinho raro de ver,
é a despedida dos luminares do céu.
fotografia
o instagram existe há seis anos
eu tenho instagram há seis meses
eu tinha a crise do filtro
mas o filtro existe pra tudo na vida
e eu uso muito.
eu amo ir às exposições.
vejo fotos no instagram
como vejo algo exposto
fico um tempão observando
sei lá porque, não sei se faço
cara de pseudointelectual.
ontem eu descobri que meu olho
e meu eu ainda estão domesticados
eu ainda olho para o que posso olhar,
achando que só olho para o que os outros
olhos não olham, falsa ilusão a minha.
eu vi uma foto de uma moça de costas no rio,
ela estava de topless
a foto era de uma delicadeza, mas se fosse eu
não postaria. mas e se eu fosse homem, postaria?
e o que falariam de mim, como mulher, se postasse?
ô olhinhos que julgam.
do nada percebi que nem fotos mulheres podem postar
sem pensar em sua condição de mulher.
se a mulher da foto não tivesse postado,
talvez não pensaria nada disso.
- mais do que o corpo, a atitude dela foi linda.
foto linda. tudo lindo.
até meu olhinho.
eu tenho instagram há seis meses
eu tinha a crise do filtro
mas o filtro existe pra tudo na vida
e eu uso muito.
eu amo ir às exposições.
vejo fotos no instagram
como vejo algo exposto
fico um tempão observando
sei lá porque, não sei se faço
cara de pseudointelectual.
ontem eu descobri que meu olho
e meu eu ainda estão domesticados
eu ainda olho para o que posso olhar,
achando que só olho para o que os outros
olhos não olham, falsa ilusão a minha.
eu vi uma foto de uma moça de costas no rio,
ela estava de topless
a foto era de uma delicadeza, mas se fosse eu
não postaria. mas e se eu fosse homem, postaria?
e o que falariam de mim, como mulher, se postasse?
ô olhinhos que julgam.
do nada percebi que nem fotos mulheres podem postar
sem pensar em sua condição de mulher.
se a mulher da foto não tivesse postado,
talvez não pensaria nada disso.
- mais do que o corpo, a atitude dela foi linda.
foto linda. tudo lindo.
até meu olhinho.
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