6 de abril de 2016

tempo

desde que nascemos o tempo corre contra a gente
eu sempre confundo ditados, mas tem um
que eu nunca confundo
"para morrer basta viver"
cada dia que vivemos
é menos um que temos para viver
hoje eu recebi uma notícia que dizia
que há cheiro de morte no ar
mas eu não quero respirar
mas se não respirar vou morrer.

depois de ouvir a notícia liguei para meu marido
depois liguei para minha irmã
que ligou para minha filha
que ligou para minha filha
todos estão preocupados comigo
eu ando triste
não queria ficar assim
mas não consigo
depois da notícia me vieram tantos pensamentos
eu quero tempo.

um dia eu chamei minha filha mais velha
para almoçarmos, só nós duas
mas isso nunca aconteceu
a minha filha mais nova não me entende
meu marido me motiva
eu não sei porque sinto o que sinto
às vezes me silencio, gosto de observar
penso num passado que não posso mudar
e num futuro que gostaria de construir,
mas não consigo. eu quero tempo.

tempo para pintar
tempo para viajar
tempo para brincar
tempo para amar e ser amada
tempo para correr
tempo para crescer
tempo para lutar
tempo para insistir
tempo para viver
eu quero tempo.





30 de março de 2016

am[d]or

hoje compartilharam um texto que escrevi em 2013
eu falava sobre o amor
não falava sobre o meu amor
falava sobre o amor de outros
esses outros que compartilharam meu texto
três anos depois eu queria escrever sobre o amor
mas só consigo escrever sobre a dor
ontem eu li que rimar amor com dor é péssimo
eu também acho
o ideal é somar amor com amor
mas quando escrevo sobre a dor
é porque amei muito alguém que foi

real

eu já li muitos textos sobre representação
todos discutem como representar o real.
o dia em que finalmente compreendi
que o  real não se trata do que vemos,
mas, do que nosso consciente absorve
foi quando vi meu avô em um caixão.

28 de março de 2016

compaixão

penso que hoje experimentei uma aproximação
de sentimento
por acaso um perfil foi me levando a outro perfil
que me levou a outro perfil
que me fez ler o que as palavras tentam
representar
uma mãe escreve constantemente
na página do filho morto
escreve sobre amor e saudade.
ainda hoje assisti um filme
sobre uma família que tenta
se reencontrar após uma tragédia,
nenhum deles morreu dentre tantos mortos.
a mãe relata cenas nas quais vê o filho morto
vivo.
eu assisto leio choro
minha inocência me faz crer que entendi um pouco
o que é maternidade e ausência.

15 de março de 2016

psicanálise

na véspera do retorno para casa
sonhei com meu avô
eu saía do banheiro de um shopping
quando o vi caminhando bem devagarinho,
como caminhava nos últimos dias,
cheio de dores nas pernas.
seus cabelos não estavam tão brancos
e ele usava o pullover cinza de sempre...
quando me aproximei, ele não me reconheceu,
então acordei sentindo sua presença formidável
desejando encontrá-lo na luz, na luz, na luz

era diz 12, sete meses de ausência.
a psicanálise talvez explique.

par

minha irmã e meu cunhado
meu esposo e eu
minha tia e meu tio
minha mãe e meu padrasto
meu sogro e minha sogra
minha avó.

7 de março de 2016

família

eu queria escrever sobre coisas profundas
mas só tenho escrito textos curtos
sobre família.
e família não é um assunto profundo?