às vezes eu tenho a sensação de que querem que eu seja perfeita. eu não posso falar um palavrão. eu não posso comer antes do meu namorado, e nem posso não saber o que comer. eu tenho que entender que o dinheiro não é o bastante. tenho que sorrir, mesmo se estiver de mau humor porque ninguém tem nada a ver com isso. eu tenho que perdoar, mesmo se vivo insegura. eu tenho que saber lavar, passar, cozinhar. eu tenho que entregar uma tese em 24 meses, mesmo sem receber um tostão do dinheiro que me é devido. eu tenho que ser simpática com piriguetes, quando na verdade adoraria dar uns bons tapas na cara de cada uma delas. eu tenho que ser magra. tenho que recepcionar às pessoas como se o que passei durante o dia não tivesse importância e ainda tenho que dar atenção. tenho que saber em qual lugar sentar. tenho que organizar tudo. tenho que entender que pessoas que "deveriam" me ajudar, não me ajudam, e elas ainda têm que ser muito "especiais". mesmo eu sendo um amorzinho ainda sou mal tratada, mas tenho que entender e não esperar nada em troca. eu tenho que ligar para dar parabéns, tenho que mandar mensagem, tenho que responder na hora, mas comigo: nada.
2 de setembro de 2014
surpresa
eu dizia para a menina "deixe de ser romântica, os homens não são como nos contos de fadas." e ela sonhava. Lia tanto e imaginava... dizia que sim, existia um homem que lhe traria flores, por detrás das costas, e depois de um beijo cheio de amor, as entregaria, dizendo que ela era a mulher de sua vida. a menina acreditava veemente que esse mesmo homem, lembraria de todas as datas comemorativas e em cada uma delas faria algo diferente (nada que custasse muito caro), como pendurar balões no teto, com fitilhos amarrados às fotos deles. fotos não faltariam porque ele seria o tipo de homem que gosta de registrar cada momento, tornando-o único. eu dizia "menina, quanto mais sonha, mais iludida fica e quando acordar vai se frustrar". ela dizia que o amor era como uma plantinha, e eu dizia que era isso mesmo, o problema é que eu nunca vi um homem regar plantinha a não ser jardineiro. e ela ria de mim. não passou muito tempo e como uma profecia, tudo que eu dizia se cumpriu. a menina vivia fazendo pequenas surpresinhas e nada. vivia dando dicas do que queria e nada. e eu sentia saudade daquela menina que era sonhadora, pois ia ficando amarga, amarga, amarga. jamais diria a ela "termine com este rapaz" por que ele era singular. gentil. respeitável. amoroso. inteligente. trabalhador. o problema era essa coisa de menina que ela tinha. o que eu queria mesmo dizer a ela é "MUDE", porque o que ela esperava não existia. pedir que um homem seja tudo isso e romântico é sonho e sonho é sonho, não realidade. de todo modo, eu não podia dizer-lhe isso, porque todas essas fofurices que criava e desejava tornavam-a singular também. enfim, disse a ela que entre ela e o mundo havia um descompasso, que se ela desejava viver todo esse sonho, bastava que ela dormisse pra sonhar de verdade e foi o que ela fez. o problema foi que a menina não acordou mais...
23 de junho de 2014
anacronismo
está tudo correndo,
tem milhares de pessoas ao meu redor.
passaram um, dois, três dias
passaram-se meses, anos
e está tudo correndo.
estou numa avenida
cheia de carros, cheia de movimento
vivi primaveras, verões
outonos, invernos
e eu estou parada.
conheci gente de todas as idades
e eu ainda estou parada.
o tempo gira, gira e gira,
se as lágrimas caem, param
e não chegam ao chão.
se eu sorrio o som não sai,
estou parada no tempo.
reconheço gerações,
mas não pertenço a nenhuma
alguns viajam, outros habilitados
latinos que orgulham-se de falar inglês
têm um celular cheio de aplicativos
querem o mundo, são vazios de relacionamentos
e eu estou parada no tempo.
quando quero falar, calo,
nenhum assunto me compete
e eu estou parada, parada
no espaço e no tempo.
já andei sob quatro pernas,
sob duas, em breve sob três
vejo tudo mudar
e eu continuo parada.
como se estivesse congelada
inerte, observo cada detalhe,
suas transformações,
enquanto me vêem diferente
sinto-me igual,
porque estou parada.
ouço uma música
e dentro da minha bolsa
tem discos de vinil,
apesar de viver nos anos dois mil.
quando olho o farol,
está tudo em preto e branco.
aceno para pegar carona,
mas o táxi é uma carruagem.
enlouqueço, parada do tempo.
sobre a calvice
eles estão desesperados.
e eu acho engraçado.
por que homens têm medo de ficar careca?
70% das cirurgias plásticas, no Brasil
são feitas por homens que aplicam cabelo.
uns penteiam os poucos fios que restam
para o lado da careca
e têm a cabeleireira como uma artista.
ela leva cerca de uma hora para cortar
os poucos fios que sobram,
mas a verdade é que é vantajoso ser careca!
você não gasta dinheiro com tintura
(na velhice tem uns bregas que pintam
os cabelos brancos),
os carecas estão livres disso.
carecas não têm piolhos, nem caspas
carecas não têm medo do sol,
podem usar bonés na juventude
e boinas na velhice: gracinha.
carecas poupam água e produtos de higiene
reparem: os lutadores dos filmes
são carecas, fortes e altos,
além de ter super bom humor.
qual a vantagem de ter cabelo
e deixar como de jogador de futebol?
(e se for brasileiro, então...)
enquanto eles gastam com Finasterida,
elas querem um espelho para se olharem.
não tenham medo de tesoura, carecas!
deixem para elas, porque pior que homem careca
é mulher de peruca.
máscara
gente fingida é irritante.
sonsa, talvez, fosse a melhor palavra
ou hipócrita.ouço ao telefone a velhinha falar
"não sei de nada, não ouço nada"
falsa que só.
vejo a menina olhar
sorrir, mandar mensagem e dizer
"eu, dar em cima? Jamais, você é ciumenta"
descubro as mentiras
enquanto o outro pensa
ser mais esperto que eu
talvez meu rostinho de tola,
minha complacência
os façam pensar que está tudo bem
"ok", vamos entrar no jogo
e ver a máscara de quem cai primeiro.
13 de junho de 2014
rejeição
primeiro: a bisavó.
índia que encontra um português
casa-se, tem doze filhos,
é rendera e vê o marido
vez ou outra, sabe de histórias
ela não é a única índia.
morre ela, morre ele.
segundo: a avó
mulher branca que se casa
ele é alfaiate, com posses
ela tem duas filhas, passam fome
o marido tem outras mulheres
ela diz que perdoa
permanecem juntos.
terceiro: a mãe
mulher moderna divorciada
traída duas vezes
terceiro casamento. ele é preguiçoso
e ela trabalha muito para o sustento
de todos, enquanto a pelada é boa
diz que a ama, mas ela não é feliz
quarto: a filha
menina estudada e sonhadora
tem um futuro brilhante
quer se casar, ama intensamente
mas carrega consigo
o medo das mulheres da família
rejeição.
coração
um coraçãozinho caminhava pela floresta encantada à procura de outro coração. o dia estava ensolarado e de tanto caminhar e suar, desfaleceu e caiu no sono. ao acordar, a tarde estava enegrecida, relampeava e o coraçãozinho se fechou de tanto medo. a chuva chegou e ele não tinha onde se abrigar. ouvia vozes que diziam para ele desistir, mas ele sabia que era muito triste ficar sozinho, então, com medo das águas e de uma possível enchente, levantou-se, cheio de coragem e partiu. bem lá no fundo, ele se lembrava daquele que lhe disse que o amor era como as quatro estações, havia tempos de flores, de chuva, de sol e sequidão. o coraçãozinho sofria muito e não sabia se todo o sacrifício valia à pena, afinal ele só conhecia o amor de ouvir falar, e no primeiro dia da sua jornada já estava tão desgastado... à noite foi se aproximando e o coraçãozinho foi ferido, não enxergou o enorme galho no meio da escuridão, então aquietou-se na sua solidão. foi quando outro coração se aproximou dele, e ele imaginou "é esse", e ao passar por ele, ao invés de o ajudar, fez o contrário, cravou um espinho bem grandão no peito do coraçãozinho. em lágrimas o coraçãozinho perguntou "por que você fez isso comigo?" e o outro coração respondeu: "para você desistir logo da jornada". de repente a luz da lua brilhou sobre o coração e o coraçãozinho percebeu que a cor desse coração já não era vermelha, era tão negra quanto o petróleo. o coraçãozinho perguntou-lhe "o que aconteceu?" e ele disse "eu encontrei o coração que procurava, mas ele me feriu, eu decidi perdoar, porque era bom, mas ele me feriu novamente, agora dedico-me a impedir que corações bons como você fiquem como eu". o coraçãozinho bem enfraquecido abraçou o coração enegrecido e o abraço foi tão longo, tão cheio de carinho, que aos poucos o coração foi se transformando, e o coraçãozinho foi morrendo. o coração desesperado perguntou "o que você fez?" e o coraçãozinho respondeu "eu te amei desde o momento em que ouvi os seus passos, com você veio a esperança e mesmo que tenha me ferido eu jamais lhe desejaria o mal, nem se eu tivesse todo o amor do mundo (que não conhecia) eu poderia transformar-lhe se no fundo você não fosse bom". o coração chorou com o coraçãozinho nos braços, pensou em tudo que tinha feito, todo esse tempo na floresta encantada. pensou que na verdade era pelo coraçãozinho que ele também procurou a vida toda e quando finalmente o encontrou ele estava morrendo por causa dele. mesmo com toda a lágrima do coração, o coraçãozinho não resistiu e de tanto sofrimento o coração partiu também. ambos vermelhinhos e de mãos dadas. quando outros corações passam porque aquele trecho, cheio de melancolia e tristeza, recordam-se do testemunho de amor do coração e do coraçãozinho.
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