21 de dezembro de 2022

nunca li

textos seus.

cansei de

ouvir sobre

seus poemas

e de sentir

sua intensidade.

pobres sofrem

não têm tempo

de pensar sobre

seu sofrimento.

lidar com a frustração de saber

nenhuma língua

enquanto você sabe três.

lidar com a frustração de viver

no próprio país

enquanto você vive no lápis

lidar com a frustração de escrever

nenhum livro

enquanto você escreve um não-livro

lidar com a frustração de ser 

invisível

enquanto escritores te leem

sirvo para substituta

mas não sirvo para permanente


isso é um poema sobre relacionamento

ou trabalho?

não sei, você o dirá.

na sala de aula

o compromisso é

eu ensino, você aprende

você ensina, eu aprendo

se nos gostamos é lucro.

lucro é uma palavra

que não deveria caber

em um poema sobre

educação, mas, assim como

a vida, a linguagem está aí

para testar limites.

até que ponto algo pode alargar

25 de maio de 2021

paladar

ontem eu descobri que estrogonofe não é mais meu prato favorito,

que comer cogumelo duas vezes por semana me deixa satisfeita
que suco de limão azeda de um dia para o outro
que beber suco de maracujá faz meus olhos arderem
que os gomos da laranja no suco me incomodam, assim como o pelo da manga
que não consigo engolir coco porque é seco
que gosto de queijo, mas não gosto de pizza de quatro queijos
que banana se tornou uma fruta gostosa
que posso trocar chocolate por outras sobremesas tão boas quanto
que chá de lichia é minha nova bebida favorita

e que pra quase tudo eu tenho algo favorito
cantora: marisa
pintor: paul klee
cor: cinza
palavra: inefável
poema: "carta aos meus filhos sobre os fuzilamentos de goya"
poeta: drummond
fotografia: joão cabral, o português
dramaturgo: brecht
café: jardin, que não é mais café, é antiquário (isso é um problema)
e parece que esse poema não é mais sobre comida, mas é porque tal como comida a arte sustenta e é consumida

hoje estou sem paladar.

14 de outubro de 2020

a gente junto

a real é que eu me pego pensando quem eu sou pra um monte de gente e é demais saber que para cada um eu sou uma, nunca a mesma. eu já pensei que pra você eu fui muita gente e nada ao mesmo tempo. acho que você já pensou que eu me interessei por você. às vezes me convenço de que você me achava incrível, mas não era possível acontecer nada. ora eu estava no passado, você no presente, fora do tempo apenas um véu nos separava. eu podia sentir o seu toque, ouvir suas risadas, até ver suas expressões faciais icônicas, mas um véu tem a mesma força do tempo. a gente permanece longe, mesmo perto. a gente nunca foi a gente. a gente tem mais pergunta que resposta. 

11 de agosto de 2020

enquanto procurava por você no instagram
pensou se procurou por ela também.
não ao mesmo tempo,
porque estão em tempos diferentes
continuamente, num ciclo sem fim.
quando se ausentou só queria sentir falta
estava toda preenchida
de informações sufocantes e inúteis
então desistiu até de você e fez bem.
mas agora sente a falta
mesmo vivendo na mesma cidade
sendo seguidores mútuos
compartilhando grupo de whatsapp,
mas sem nenhum assunto.
presa em casa queria foto sua no instagram