1 de julho de 2019

em construção

um menino de dezenove anos morre. deixa uma mãe e dois irmãos mais novos. restam muitos amigos. cada um, velando o corpo, presta seu testemunho descrevendo como foi conviver com esse menino. esse menino tem meu sobrenome, na prática não sei o que isso significa. o que um sobrenome carrega?
ouvi que durante o ensino médio ele não tinha celular e estava sempre com a mesma blusa vermelha. a questão não é o celular em si - é possível que a qualidade de vida e relacionamentos dele tenham sido muito melhores sem esse objeto - o problema é: onde estava a parentela para dar suporte às necessidades sócio-econômicas pelas quais esse menino passou? um celular. uma blusa não são tão caros assim.
diante da inconformidade da injustiça, os amigos o ajudavam com os trabalhos que dependiam de internet. ao ouvir seus depoimentos e conhecer esse menino, meu parente - depois de morto - a palavra 'família' pulsava insistentemente me mostrando que a definição que tinha era muito equivocada.
enquanto internamente eu era o caos em silêncio, uma criança me disse 'família é onde cabe todas, todas, todas as pessoas, né?'. eu chorei em paz porque mesmo com a ausência da 'família', a Família desse menino era presente.
"era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada..." foi nessa casa que esse menino viveu. ao abraçar sua mãe ela me disse 'por que meu filho morreu agora, quando finalmente ele teria um lar?' "mas era feita com muito esmero, na rua dos bobos número zero".
não é justo um menino de dezenove anos morrer. 'não é justo para quem? para ele ou para quem ficou?' não é justo que em vida a dignidade lhe tenha sido negada. ainda bem que, em alguma medida, a felicidade não depende da justiça.

20 de abril de 2019

30 de março de 2019

cérebro

traiçoeiro
queria escrever querida,
mas escrevi queria
sem querer.
quanto mais não
mais quero
e porque não
só querela

2 de março de 2019

carnaval

Se você digitar no Google "Carnaval" vai aparecer imagens do Brasil, embora essa festa ocorra em outros lugares, isso não é curioso? A maioria das pessoas sabem que o Carnaval é uma festa "pagã" - pagã aos olhos de quem? - que reúne tradições babilônicas, mesopotâmicas e romanas. A doutrinação da igreja faz com que certos cristãos tornem verdade absoluta a sua interpretação das escrituras, favorecendo uma liderança que lucra com a opressão de pessoas. Nesse sentido, o que há de mais bonito no Carnaval é a inversão de papeis.
Quantos pobres, negros, mulheres, LGBT+, entre outros, sofrem com a desigualdade social no Brasil? Uma resposta possível para o sucesso do Carnaval no país, seja a possibilidade de em alguns dias cada um ser o que quiser ser. Certamente alguém vai dizer: "Mas você está idealizando o Carnava, esquece que das orgias, dos acidentes, do dinheiro que é desviado para o tráfico, etc.?" e a resposta vem sem seguida, mas sempre em forma de pergunta "não, não esqueço, mas o que tudo isso interfere na sua vida? Em que a orgia do outro, o acidente do outro, o desvio do outro te afeta, se quem sofre as consequências é o outro?"
Talvez o tráfico, em uma série que desencadeia diversos outros problemas, seja o que o prejudica a maioria das pessoas, mas ninguém obrigada ninguém a usar drogas, logo o maior problema é a estrutura educacional, não a festa. Acredite, tem gente que tem na droga seu lazer ou sua sobrevivência. Para quem mora na rua, passa fome e frio, a droga - lícita e ilícita - ajuda a suportar a realidade e estender os dias de vida (o pior é que eu já ouvi que é melhor essa gente morrer do que sofrer - oi? Onde está sua humanidade? O melhor não seria oferecer oportunidades de saúde, recuperação e reintegração social? Sabia que em um fluxo você pode encontrar gente até com pós-doutorado que é poliglota? Já se perguntou porque ela foi parar lá?). 
Adolescentes e jovens que vivem na periferia, mas não só eles, às vezes usam droga simplesmente pelo "barato" e pelos amigos. Já calculou como o básico do entretenimento custa caro em São Paulo, por exemplo? Se alguém for ao cinema numa quarta-feira, pela manhã (horário que os adolescentes e jovens normalmente estão na escola) vai pagar $10,00, somando as passagens de transporte público ida e volta $4,60, se comer em um lugar barato, cujo a coxinha custa $2,00 e ganha outra e somar com a bebida, ele ou ela gastará $25,00. Mas tem um detalhe, normalmente esse adolescente ou jovem mora com mais uns três irmão no mínimo e a mãe trabalha como empregada doméstica. A família mora em uma residência de aluguel e o pai ninguém sabe onde está.
Quando esse adolescente ou jovem me diz que usa droga, eu não consigo criticar, por mais que eu saiba que na maioria dos casos não é saudável. Quando ele vai ao bloquinho de carnaval e ocupa a cidade, gratuitamente, ouvindo música e dançando com os amigos, eu não consigo criticar. Sim, há outras formas de se divertir, mas não para eles. Esse mundo é cruel, por isso a inversão de papéis me encanta.
Evidentemente, quando homens se vestem como mulheres no Carnaval, eles não são tratados como normalmente as mulheres são tratadas. Ainda não ouvi nenhuma história de homens fantasiados como mulheres dizendo que foram assediados, ou que passaram a mão nas partes íntimas deles, ou que veio um grupo de mulheres e os cercaram para violentá-los, ou que mulheres os doparam e eles acordaram em lugares desconhecidos. Que bom que eu nunca ouvi histórias assim, mas o contrário eu ouço todo dia. A inversão de papeis não é completa e intrínseca, leva tempo para apreender. É aos poucos. Primeiro as pessoas ocupam o território, depois elas aprendem que "não é não", que é bom deixar a rua limpa e que um dia os papeis nem vão mais precisar se inverter porque vamos ter aprendido COMO CONVIVER COM AS DIFERENÇAS.
Ontem os alunos que estudam onde trabalho fizeram um bloquinho de Carnaval. Estava tudo invertido. Uma pessoa disse "está todo mundo saindo do armário hoje", que bom que tem um dia para sair do armário até que ninguém mais tenha que viver lá, seja qual for a questão. Ao retornar para casa com glitter no rosto, eu encontrei uma adolescente com glitter no rosto também, nos olhamos, sorrimos, nos reconhecemos mesmo sem nos conhecer e foi bonito porque estávamos juntas e livres.

25 de fevereiro de 2019

cristãos: parem de matar pessoas

antes de começar, quero dizer que isso é um testemunho.

Quem me conhece sabe que, quando meus pais se divorciaram eu tinha seis anos, meus avós ficaram responsáveis pela minha educação. Minha avó e eu somos bem diferentes, consequentemente eu sempre fui mais próxima do meu avô.
Em 2015, ele faleceu durante uma cirurgia cardíaca. O meu avô foi o ser humano, mais humano que eu já conheci. Evidentemente ele tinha defeitos, se fosse perfeito não teria vivido aqui durante 65 anos - que para mim foi tão pouco.
Sabe aquela pessoa que, mesmo sem ser dia de ação de graças, ao ver uma pessoa desconhecida com fome dá te comer? Aquela pessoa que se abnega até que todos possam estar bem e então passa a pensar em si? Meu avô era essa pessoa.
Na juventude ele foi alfaiate, mas depois de um certo tempo essa profissão se extinguiu e, então, ele tornou-se barista. Eu só tenho memórias do meu avô trabalhando no bar dele. Quando minha começou a frequentar a igreja evangélica, todos queriam que o meu avô fosse à igreja, mas ele só ia quando algum neto se apresentava em cantatas ou no dia dos pais. Um dia eu perguntei a ele por que ele não frequentava a comunidade e ele me respondeu: Eu tenho um bar, essa é minha fonte de renda, eu sei que é digno, mas as pessoas me julgariam porque vender bebida não é certo.
Evidentemente eu não creio que "ir à igreja" faria diferença no caráter do meu avô. Eu costumava ouvir que "igreja é como um hospital, só tem gente com problema ou doente", se esse pensamento estiver correto, realmente meu avô não precisava de igreja. Triste é uma pessoa querer frequentar um espaço, mas não fazê-lo porque sabe dos julgamentos, e mais triste ainda é isso acontecer em um ambiente tristão, cujo discurso não condiz com a prática.
Enquanto eu estive na Irlanda, em uma das aulas, um professor disse "Fuck Jesus" e aquilo me despertou muitas questões. Dentre elas "Por que ele está dizendo isso? E se na sala há cristãos? Etc" Não vou me ater à história do meu professor e do quão incrível é a pessoa dele a ponto de não me ofender com sua frase. Apenas citei esse exemplo para dizer que a reação dele é normal se observarmos o contexto irlandês, a igreja católica e protestante rivaliza há mais de quatro séculos e mata gente. Mata muita gente. A divisão territorial é clara: Irlanda do Norte - protestante;  República da Irlanda - Católica. Já, aqui, no Brasil há divisão territorial, com a diferença é que a linha é imaginária.
Pois bem, na véspera da cirurgia do meu avô, uma tia-avó foi nos visitar e disse a ele "Júlio, você sabe que sua cirurgia tem risco, você precisa aceitar Jesus, do contrário, se você morrer vai para o inferno". Ouvir aquilo me dilacerou. Que deus é esse? E essa mania que cristãos têm de julgar, como quem sabe o destino da alma de cada um. Eu quis dar uma resposta bem atravessada, mas meu avô apenas disse "Obrigada pelo conselho", então ela foi embora. Eu não entendi nada, mas ele me disse que na verdade ela não tinha entendido nada.
Minha questão é que não é só ela quem não entendeu nada. A principal mensagem do evangelho é o amor, mas os cristãos projetam nessa mensagem o pior de si. Quantas meninas na igreja engravidam antes de casar-se e não recebem nenhum amparo? Quantas mulheres apanham de seus maridos, às vezes casaram-se porque "fornicaram", e têm que permanecer sofrendo porque um dia Deus vai mudar? Quantas jovens não podem ir à igreja de calça, vão de saia e são recriminadas pelo "curto", enquanto o homem passa tranquilamente como se não tivesse responsabilidade sobre isso? Quantas pessoas passam fome, mas têm que estar com roupas impecáveis para ser "aceito"? E se for morador em situação de rua, definitivamente não haverá espaço para essa pessoa na igreja. Eu poderia elencar inúmeras perguntas que denunciam a hipocrisia dos cristãos.
Minha sorte na vida é encontrar pessoas como meu avô e conhecer de pertinho quem é Jesus.

24 de fevereiro de 2019

Na Irlanda é "sorry"

Desde criança ouvimos dizer que há "palavrinhas mágicas", como "por favor", "obrigada", "com licença" e "desculpa". Com o passar do tempo as palavras perdem a magia e não nos preocupamos mais com seu significado, o uso cotidiano nos faz perder a noção do poder das palavras ou do poder que as palavras têm de acordo com quem as fala.
Em uma aula de inglês, aprendemos que "desculpa" é "sorry" e "com licença" é "excuse me", na Irlanda: não.
Se alguém esbarrar em você, dirá "sorry"; se você estiver na frente de alguém ele dirá "sorry"; se ele precisar de algo e você puder ajudá-lo, ele dirá "sorry". Como professor de língua, leva tempo até você entender a linguagem em funcionamento, fiquei pensando qual seria a palavra que os irlandeses realmente usam quando querem de desculpar, quando estão arrependidos. Diferente de nós, falantes do português brasileiro que usamos perdão com uma conotação mais forte que "desculpa", eles o usam quando não entendem o que foi dito.
Ao mesmo tempo, os brasileiros têm vivido situações que realmente necessitam de pedido sincero de desculpas, mas se não há arrependimento, não há porque pedir. Na Irlanda me perguntaram por que há tantos brasileiros lá e por que elegeram Bolsonaro, se ele tem um discurso tão violento? Eu não sabia como responder a segunda pergunta, mas tentei responder à primeira. A Irlanda fala inglês. Um dos principais fatores que contribuem para o crescimento econômico da Irlanda é a língua. Isso me encantou. Como toda língua há regras e há quem não fale seguindo as regras, porque a língua é viva. Os brasileiros que vão à Irlanda, evidentemente não são pobres ou tão necessitados quanto os bolivianos que recebemos, são contextos diferentes, ir para Europa custa caro. Mas a Irlanda tem políticas de imigração um pouco mais flexíveis, um custo de vida um pouco menos que os demais países de língua inglesa, um povo que não chega a ser caloroso, porém é receptivo; enfim, a Irlanda é a sétima economia do mundo, as principais empresas estão levando duas sedes para Dublin, tanto pela infra-estrutura, quanto pelos baixos impostos e juros. Arrisquei dizer que esses são alguns motivos pelos quais há tantos brasileiros lá, é preferível dizer o que há de melhor no outro. Temi dizer que há muito tempo falta, por parte dos representantes políticos brasileiros, um verdadeiro pedido de desculpas. Temi dizer que os brasileiros que têm uma renda maior estão saindo do país porque está tudo um caos. Por mais estereotipado, preferi deixar os irlandeses com a imagem da Amazônia, do Rio, da feijoada e do Carnaval, pois são belas imagens.
O mais curioso nessas perguntas que me fizeram é que eles, tão distantes de nós, perceberam a violência no discurso de Bolsonaro. Talvez, para os irlandeses, a palavra "sorry" não seja tão superficial quanto parecia, pode ser que eles usem "sorry" porque não querem que aquilo se repita. Eles percebem a violência nas palavras, enquanto alguns brasileiros as reproduzem muitas vezes sem pensar sobre elas.
"Sorry" por matar negros indiscriminadamente.
"Sorry" por roubar dos pobres e favorecer ricos.
"Sorry" por não oferecer moradia, saneamento básico, educação e saúde para quem precisa.
"Sorry" por matar tantos LGBT+  e dizer que é cristão.
"Sorry" por não cuidar da nossa natureza.
"Sorry" pela corrupção polícia que contribui para que tantos jovens morram de overdose.
"Sorry" por conduzir um país cheio de gente do bem e tão belo, considerando os próprios interesses.
"Sorry" é o que os políticos brasileiros deveriam dizer ao povo. Como isso não acontece, é comum o brasileiro ir e não querer voltar.

31 de dezembro de 2018

julgador profissional

O que faz uma pessoa julgar outra é o sentimento, mesmo que imperceptível ou negado, de que se é melhor que o outro em algum quesito. Porém, quem julga costuma esquecer que há muitos quesitos.
Eu sou um julgador profissional. Sim, eu conheço a metáfora de que uma mão cujo indicador aponta para o outro, consequentemente tem três dedos apontados para si, mas eu sou tão profissional em julgamentos, que não dou a mínima para isso.
Vou lhes dar exemplos. A filha do presidente, não é presidente, pode ser que ela não influencie nas decisões do governo, mas muitos que eu conheço querem ficar perto dela, inclusive eu - talvez, mais que julgador, eu também seja hipócrita -. Para me enganar começo a elencar os motivos pelos quais as pessoas querem estar perto da filha do presidente, nem considero a possibilidade dela ser uma pessoa incrível. As pessoas que querem estar perto da filha do presidente são: interesseiras, procuram se destacar não pelo que são, mas pelo "puxasaquismo"; elas são pobres, não têm dinheiro para comprar um carro, mas no cartão de crédito têm uma conta quase impagável no Uber só para mostrar ser o que não são, vulgo ricas. Se a filha do presidente gosta de criança, as pessoas que querem estar perto dela também gostarão de criança. Prefiro não imaginar quais são as vontades da filha do presidente... já pensou se ela quiser eliminar do país todos os pretos? Não vai faltar gente para ajudá-la. 
Ah, essa gente, não pensam antes de agir! Estão vendo como eu julgo bem?
Outro exemplo. "Quem não segue de volta nas redes sociais é prepotente". "Como assim me conhece há três anos, me vê todo dia e não me segue? Acha que é melhor do que eu?" Coitados. Sério, alguém me explica por que com todo esse vínculo as pessoas não te seguem? Três anos! Quando ouço isso eu respondo: você é trouxa, pobre e não é influente, por que alguém te seguiria? Em três anos você não foi competente o bastante para angariar likes, se vestir bem, viajar, ser engraçadão ou algo assim - percebem minha sensibilidade, né? Mas eu estou ajudando a pessoa abrindo seus olhos. O mundo virtual, com muita base no real é assim, as pessoas comentam que te amam e em seguida falam mal de você - vejam como vim ao mundo para julgar, faço isso muito bem.
Mais um exemplo, o último. Fim de ano: promessa. Sinceramente, é o período que eu mais me divirto. Todos se amam, só que não. É foto da família sorridente que brigou o ano inteiro ou nem se viu. É regime ou treinamento que não será cumprido. Casamentos que serão desfeitos, porque uns demonstram ser santos, mas são a própria lascívia. E se for pastor, ai dele se não tiver a vida perfeita! É gente ofertando para caridade, mas roubando dos pobres - à essa gente damos o nome de "político honesto" e ainda ressaltamos que "dessa vez será diferente". Como fim de ano é lindo!
Você deve me achar a pessoa mas horrível do universo, né? Mas fala sério, não se identificou nenhum pouquinho? Olha que o primeiro passo é reconhecer o que se é, parar de fingir toda essa doçura e mudar. Se for cristão principalmente. Foi o que eu fiz. Decidi escrever e prometi: ano que vem será diferente, e se você for a filha do presidente sua missão é me ajudar: não tire proveito disso e dispense seus seguidores.


(Mateus 7:1-8)