2 de março de 2019

carnaval

Se você digitar no Google "Carnaval" vai aparecer imagens do Brasil, embora essa festa ocorra em outros lugares, isso não é curioso? A maioria das pessoas sabem que o Carnaval é uma festa "pagã" - pagã aos olhos de quem? - que reúne tradições babilônicas, mesopotâmicas e romanas. A doutrinação da igreja faz com que certos cristãos tornem verdade absoluta a sua interpretação das escrituras, favorecendo uma liderança que lucra com a opressão de pessoas. Nesse sentido, o que há de mais bonito no Carnaval é a inversão de papeis.
Quantos pobres, negros, mulheres, LGBT+, entre outros, sofrem com a desigualdade social no Brasil? Uma resposta possível para o sucesso do Carnaval no país, seja a possibilidade de em alguns dias cada um ser o que quiser ser. Certamente alguém vai dizer: "Mas você está idealizando o Carnava, esquece que das orgias, dos acidentes, do dinheiro que é desviado para o tráfico, etc.?" e a resposta vem sem seguida, mas sempre em forma de pergunta "não, não esqueço, mas o que tudo isso interfere na sua vida? Em que a orgia do outro, o acidente do outro, o desvio do outro te afeta, se quem sofre as consequências é o outro?"
Talvez o tráfico, em uma série que desencadeia diversos outros problemas, seja o que o prejudica a maioria das pessoas, mas ninguém obrigada ninguém a usar drogas, logo o maior problema é a estrutura educacional, não a festa. Acredite, tem gente que tem na droga seu lazer ou sua sobrevivência. Para quem mora na rua, passa fome e frio, a droga - lícita e ilícita - ajuda a suportar a realidade e estender os dias de vida (o pior é que eu já ouvi que é melhor essa gente morrer do que sofrer - oi? Onde está sua humanidade? O melhor não seria oferecer oportunidades de saúde, recuperação e reintegração social? Sabia que em um fluxo você pode encontrar gente até com pós-doutorado que é poliglota? Já se perguntou porque ela foi parar lá?). 
Adolescentes e jovens que vivem na periferia, mas não só eles, às vezes usam droga simplesmente pelo "barato" e pelos amigos. Já calculou como o básico do entretenimento custa caro em São Paulo, por exemplo? Se alguém for ao cinema numa quarta-feira, pela manhã (horário que os adolescentes e jovens normalmente estão na escola) vai pagar $10,00, somando as passagens de transporte público ida e volta $4,60, se comer em um lugar barato, cujo a coxinha custa $2,00 e ganha outra e somar com a bebida, ele ou ela gastará $25,00. Mas tem um detalhe, normalmente esse adolescente ou jovem mora com mais uns três irmão no mínimo e a mãe trabalha como empregada doméstica. A família mora em uma residência de aluguel e o pai ninguém sabe onde está.
Quando esse adolescente ou jovem me diz que usa droga, eu não consigo criticar, por mais que eu saiba que na maioria dos casos não é saudável. Quando ele vai ao bloquinho de carnaval e ocupa a cidade, gratuitamente, ouvindo música e dançando com os amigos, eu não consigo criticar. Sim, há outras formas de se divertir, mas não para eles. Esse mundo é cruel, por isso a inversão de papéis me encanta.
Evidentemente, quando homens se vestem como mulheres no Carnaval, eles não são tratados como normalmente as mulheres são tratadas. Ainda não ouvi nenhuma história de homens fantasiados como mulheres dizendo que foram assediados, ou que passaram a mão nas partes íntimas deles, ou que veio um grupo de mulheres e os cercaram para violentá-los, ou que mulheres os doparam e eles acordaram em lugares desconhecidos. Que bom que eu nunca ouvi histórias assim, mas o contrário eu ouço todo dia. A inversão de papeis não é completa e intrínseca, leva tempo para apreender. É aos poucos. Primeiro as pessoas ocupam o território, depois elas aprendem que "não é não", que é bom deixar a rua limpa e que um dia os papeis nem vão mais precisar se inverter porque vamos ter aprendido COMO CONVIVER COM AS DIFERENÇAS.
Ontem os alunos que estudam onde trabalho fizeram um bloquinho de Carnaval. Estava tudo invertido. Uma pessoa disse "está todo mundo saindo do armário hoje", que bom que tem um dia para sair do armário até que ninguém mais tenha que viver lá, seja qual for a questão. Ao retornar para casa com glitter no rosto, eu encontrei uma adolescente com glitter no rosto também, nos olhamos, sorrimos, nos reconhecemos mesmo sem nos conhecer e foi bonito porque estávamos juntas e livres.

25 de fevereiro de 2019

cristãos: parem de matar pessoas

antes de começar, quero dizer que isso é um testemunho.

Quem me conhece sabe que, quando meus pais se divorciaram eu tinha seis anos, meus avós ficaram responsáveis pela minha educação. Minha avó e eu somos bem diferentes, consequentemente eu sempre fui mais próxima do meu avô.
Em 2015, ele faleceu durante uma cirurgia cardíaca. O meu avô foi o ser humano, mais humano que eu já conheci. Evidentemente ele tinha defeitos, se fosse perfeito não teria vivido aqui durante 65 anos - que para mim foi tão pouco.
Sabe aquela pessoa que, mesmo sem ser dia de ação de graças, ao ver uma pessoa desconhecida com fome dá te comer? Aquela pessoa que se abnega até que todos possam estar bem e então passa a pensar em si? Meu avô era essa pessoa.
Na juventude ele foi alfaiate, mas depois de um certo tempo essa profissão se extinguiu e, então, ele tornou-se barista. Eu só tenho memórias do meu avô trabalhando no bar dele. Quando minha começou a frequentar a igreja evangélica, todos queriam que o meu avô fosse à igreja, mas ele só ia quando algum neto se apresentava em cantatas ou no dia dos pais. Um dia eu perguntei a ele por que ele não frequentava a comunidade e ele me respondeu: Eu tenho um bar, essa é minha fonte de renda, eu sei que é digno, mas as pessoas me julgariam porque vender bebida não é certo.
Evidentemente eu não creio que "ir à igreja" faria diferença no caráter do meu avô. Eu costumava ouvir que "igreja é como um hospital, só tem gente com problema ou doente", se esse pensamento estiver correto, realmente meu avô não precisava de igreja. Triste é uma pessoa querer frequentar um espaço, mas não fazê-lo porque sabe dos julgamentos, e mais triste ainda é isso acontecer em um ambiente tristão, cujo discurso não condiz com a prática.
Enquanto eu estive na Irlanda, em uma das aulas, um professor disse "Fuck Jesus" e aquilo me despertou muitas questões. Dentre elas "Por que ele está dizendo isso? E se na sala há cristãos? Etc" Não vou me ater à história do meu professor e do quão incrível é a pessoa dele a ponto de não me ofender com sua frase. Apenas citei esse exemplo para dizer que a reação dele é normal se observarmos o contexto irlandês, a igreja católica e protestante rivaliza há mais de quatro séculos e mata gente. Mata muita gente. A divisão territorial é clara: Irlanda do Norte - protestante;  República da Irlanda - Católica. Já, aqui, no Brasil há divisão territorial, com a diferença é que a linha é imaginária.
Pois bem, na véspera da cirurgia do meu avô, uma tia-avó foi nos visitar e disse a ele "Júlio, você sabe que sua cirurgia tem risco, você precisa aceitar Jesus, do contrário, se você morrer vai para o inferno". Ouvir aquilo me dilacerou. Que deus é esse? E essa mania que cristãos têm de julgar, como quem sabe o destino da alma de cada um. Eu quis dar uma resposta bem atravessada, mas meu avô apenas disse "Obrigada pelo conselho", então ela foi embora. Eu não entendi nada, mas ele me disse que na verdade ela não tinha entendido nada.
Minha questão é que não é só ela quem não entendeu nada. A principal mensagem do evangelho é o amor, mas os cristãos projetam nessa mensagem o pior de si. Quantas meninas na igreja engravidam antes de casar-se e não recebem nenhum amparo? Quantas mulheres apanham de seus maridos, às vezes casaram-se porque "fornicaram", e têm que permanecer sofrendo porque um dia Deus vai mudar? Quantas jovens não podem ir à igreja de calça, vão de saia e são recriminadas pelo "curto", enquanto o homem passa tranquilamente como se não tivesse responsabilidade sobre isso? Quantas pessoas passam fome, mas têm que estar com roupas impecáveis para ser "aceito"? E se for morador em situação de rua, definitivamente não haverá espaço para essa pessoa na igreja. Eu poderia elencar inúmeras perguntas que denunciam a hipocrisia dos cristãos.
Minha sorte na vida é encontrar pessoas como meu avô e conhecer de pertinho quem é Jesus.

24 de fevereiro de 2019

Na Irlanda é "sorry"

Desde criança ouvimos dizer que há "palavrinhas mágicas", como "por favor", "obrigada", "com licença" e "desculpa". Com o passar do tempo as palavras perdem a magia e não nos preocupamos mais com seu significado, o uso cotidiano nos faz perder a noção do poder das palavras ou do poder que as palavras têm de acordo com quem as fala.
Em uma aula de inglês, aprendemos que "desculpa" é "sorry" e "com licença" é "excuse me", na Irlanda: não.
Se alguém esbarrar em você, dirá "sorry"; se você estiver na frente de alguém ele dirá "sorry"; se ele precisar de algo e você puder ajudá-lo, ele dirá "sorry". Como professor de língua, leva tempo até você entender a linguagem em funcionamento, fiquei pensando qual seria a palavra que os irlandeses realmente usam quando querem de desculpar, quando estão arrependidos. Diferente de nós, falantes do português brasileiro que usamos perdão com uma conotação mais forte que "desculpa", eles o usam quando não entendem o que foi dito.
Ao mesmo tempo, os brasileiros têm vivido situações que realmente necessitam de pedido sincero de desculpas, mas se não há arrependimento, não há porque pedir. Na Irlanda me perguntaram por que há tantos brasileiros lá e por que elegeram Bolsonaro, se ele tem um discurso tão violento? Eu não sabia como responder a segunda pergunta, mas tentei responder à primeira. A Irlanda fala inglês. Um dos principais fatores que contribuem para o crescimento econômico da Irlanda é a língua. Isso me encantou. Como toda língua há regras e há quem não fale seguindo as regras, porque a língua é viva. Os brasileiros que vão à Irlanda, evidentemente não são pobres ou tão necessitados quanto os bolivianos que recebemos, são contextos diferentes, ir para Europa custa caro. Mas a Irlanda tem políticas de imigração um pouco mais flexíveis, um custo de vida um pouco menos que os demais países de língua inglesa, um povo que não chega a ser caloroso, porém é receptivo; enfim, a Irlanda é a sétima economia do mundo, as principais empresas estão levando duas sedes para Dublin, tanto pela infra-estrutura, quanto pelos baixos impostos e juros. Arrisquei dizer que esses são alguns motivos pelos quais há tantos brasileiros lá, é preferível dizer o que há de melhor no outro. Temi dizer que há muito tempo falta, por parte dos representantes políticos brasileiros, um verdadeiro pedido de desculpas. Temi dizer que os brasileiros que têm uma renda maior estão saindo do país porque está tudo um caos. Por mais estereotipado, preferi deixar os irlandeses com a imagem da Amazônia, do Rio, da feijoada e do Carnaval, pois são belas imagens.
O mais curioso nessas perguntas que me fizeram é que eles, tão distantes de nós, perceberam a violência no discurso de Bolsonaro. Talvez, para os irlandeses, a palavra "sorry" não seja tão superficial quanto parecia, pode ser que eles usem "sorry" porque não querem que aquilo se repita. Eles percebem a violência nas palavras, enquanto alguns brasileiros as reproduzem muitas vezes sem pensar sobre elas.
"Sorry" por matar negros indiscriminadamente.
"Sorry" por roubar dos pobres e favorecer ricos.
"Sorry" por não oferecer moradia, saneamento básico, educação e saúde para quem precisa.
"Sorry" por matar tantos LGBT+  e dizer que é cristão.
"Sorry" por não cuidar da nossa natureza.
"Sorry" pela corrupção polícia que contribui para que tantos jovens morram de overdose.
"Sorry" por conduzir um país cheio de gente do bem e tão belo, considerando os próprios interesses.
"Sorry" é o que os políticos brasileiros deveriam dizer ao povo. Como isso não acontece, é comum o brasileiro ir e não querer voltar.

31 de dezembro de 2018

julgador profissional

O que faz uma pessoa julgar outra é o sentimento, mesmo que imperceptível ou negado, de que se é melhor que o outro em algum quesito. Porém, quem julga costuma esquecer que há muitos quesitos.
Eu sou um julgador profissional. Sim, eu conheço a metáfora de que uma mão cujo indicador aponta para o outro, consequentemente tem três dedos apontados para si, mas eu sou tão profissional em julgamentos, que não dou a mínima para isso.
Vou lhes dar exemplos. A filha do presidente, não é presidente, pode ser que ela não influencie nas decisões do governo, mas muitos que eu conheço querem ficar perto dela, inclusive eu - talvez, mais que julgador, eu também seja hipócrita -. Para me enganar começo a elencar os motivos pelos quais as pessoas querem estar perto da filha do presidente, nem considero a possibilidade dela ser uma pessoa incrível. As pessoas que querem estar perto da filha do presidente são: interesseiras, procuram se destacar não pelo que são, mas pelo "puxasaquismo"; elas são pobres, não têm dinheiro para comprar um carro, mas no cartão de crédito têm uma conta quase impagável no Uber só para mostrar ser o que não são, vulgo ricas. Se a filha do presidente gosta de criança, as pessoas que querem estar perto dela também gostarão de criança. Prefiro não imaginar quais são as vontades da filha do presidente... já pensou se ela quiser eliminar do país todos os pretos? Não vai faltar gente para ajudá-la. 
Ah, essa gente, não pensam antes de agir! Estão vendo como eu julgo bem?
Outro exemplo. "Quem não segue de volta nas redes sociais é prepotente". "Como assim me conhece há três anos, me vê todo dia e não me segue? Acha que é melhor do que eu?" Coitados. Sério, alguém me explica por que com todo esse vínculo as pessoas não te seguem? Três anos! Quando ouço isso eu respondo: você é trouxa, pobre e não é influente, por que alguém te seguiria? Em três anos você não foi competente o bastante para angariar likes, se vestir bem, viajar, ser engraçadão ou algo assim - percebem minha sensibilidade, né? Mas eu estou ajudando a pessoa abrindo seus olhos. O mundo virtual, com muita base no real é assim, as pessoas comentam que te amam e em seguida falam mal de você - vejam como vim ao mundo para julgar, faço isso muito bem.
Mais um exemplo, o último. Fim de ano: promessa. Sinceramente, é o período que eu mais me divirto. Todos se amam, só que não. É foto da família sorridente que brigou o ano inteiro ou nem se viu. É regime ou treinamento que não será cumprido. Casamentos que serão desfeitos, porque uns demonstram ser santos, mas são a própria lascívia. E se for pastor, ai dele se não tiver a vida perfeita! É gente ofertando para caridade, mas roubando dos pobres - à essa gente damos o nome de "político honesto" e ainda ressaltamos que "dessa vez será diferente". Como fim de ano é lindo!
Você deve me achar a pessoa mas horrível do universo, né? Mas fala sério, não se identificou nenhum pouquinho? Olha que o primeiro passo é reconhecer o que se é, parar de fingir toda essa doçura e mudar. Se for cristão principalmente. Foi o que eu fiz. Decidi escrever e prometi: ano que vem será diferente, e se você for a filha do presidente sua missão é me ajudar: não tire proveito disso e dispense seus seguidores.


(Mateus 7:1-8)

31 de outubro de 2018

onde foi que nos perdemos?

Estamos em outubro de 2018, Jair Messias Bolsonaro foi democraticamente eleito presidente do Brasil há três dias. Em três dias foi confirmada a fusão do ministério do Meio Ambiente ao da Agricultura, uma deputada estadual eleita neste ano em Santa Catarina propôs que alunos vigiassem seus professores, e uma página foi criada em uma rede social reunindo publicações de eleitores que já se arrependeram de votar em Bolsonaro. A questão aqui não tem a ver com o Bolsonaro, tem a ver com arrogância. A arrogância de quem se coloca no lugar de quem pode resolver todos os problemas, a arrogância de quem acredita que sabe mais que todos os outros e por isso julga o arrependimento do outro com a famosa frase "eu te avisei" a ponto de criar uma página para expor a dor do outro; isso é agir da mesma maneira de quem há três dias atrás era condenado - se com ou sem razão não importa.
Essa situação me lembrou de dois receios que tenho: ser falsa ou arrogante, minha história faz eu detestar veemente essas duas características em qualquer pessoa, porque em ambas é difícil construir um diálogo ou troca genuína.
Há poucos dias uma tia-avó faleceu. Durante a minha infância eu passava dias na casa dela, brincava com seus netos - que no caso, são meus primos - e tínhamos um relacionamento muito bom, o qual tenho muita alegria em relembrar. Porém, o dia da morte dessa tia-avó foi triste, não pela morte dela em si, ela já sofria muito com o câncer; doeu ver a dor dos outros, por mais que o dia seguinte seja mais forte que a forte. Doeu mais ainda olhar para dentro de mim, ainda que tenha consultado pessoas de confiança e todas elas tenham me dito que era paranoia minha, prefiro considerar como alerta. Observava meus primos e me perguntava "onde eu me perdi deles?", tivemos conversas boas, daquelas que têm importância por estar junto, mas que ao mesmo tempo não têm a menos relevância. Dias atrás eu estive com amigos que convivi durante dez anos e a mesma pergunta "onde foi que nos perdemos?". Por outro lado, parecia que só eu tinha me perdido. Vê-los conversar, tanto meus primos como meus amigos, eles pareciam ter tudo em comum, o outsider era eu. Agora pensei que eles não sabem o que é um outsider e me senti arrogante. Temi que os caminhos que escolhi tenha me tornado arrogante. Temi achar que tenho mais conhecimento e temi que isso tenha nos separado. Inclusive, temi as escolhas que fiz, mesmo não me arrependendo de nenhuma delas, pois eu ainda não tenho filhos e meus primos têm, eu estudo loucamente e meus primos não concluíram a graduação, nós não compartilhamos os mesmos territórios, não nos vestimos de um jeito semelhante, etc, etc. Nada em comum a não ser a memória. Conversar com eles trouxe saudade, mas não o bastante para retomar contato, pois nossas diferenças são maiores. Ver vez ou outra é bom, ver todo dia choca.
Iniciei falando do Bolsonaro porque a eleição vez reviver gente que há muito eu não me relacionava, mas decidiu comentar minhas poucas publicações sobre o assunto. Gente que eu passei a adolescência lado a lado e me ensinou demais, mas, mais uma vez, algo aconteceu e eu me perguntei "onde nos perdemos?" como temos opiniões, gostos, crenças que pareciam tão próximas, mas mostram ser tão diferentes? E nisso tudo, por que nós e os outros cremos que o que pensamos e somos é mais ou melhor que o outro que é diferente? Não podemos desconsiderar a história do outro, nem colocá-lo em caixinhas que nós criamos e se ele quiser sair dessa caixinha "eu te avisei" é a exatamente o que não pode ser dito.
Só por hoje e todo hoje: não ser falsa e arrogante.

UGAY


UGAY foi o nome da minha primeira igreja. Sim, a primeira igreja que eu fundei, quero dizer criei,  tinha esse nome. Era uma sigla "Igreja União, Glória, Amor, Young". Deixe-me me explicar, você já leu o conto de fadas dinamarquês, cujo título é "A roupa nova do rei", de Hans Christian Andersen? Pois bem, quando eu estava na quinta série do ensino fundamental tinha 11 anos, a professora de língua portuguesa dividiu a turma em seis grupos e cada um escolheu um conto para ler. Evidentemente o meu grupo escolheu o conto acima. A proposta era envolver todos os alunos da escola em um festival de teatro - acredito que essa foi minha primeira experiência com o teatro.
Todas as turmas da escola, do quinto ao oitavo ano, foram divididos em grupos, todos eles leram diferentes contos e tinham a missão de fazer uma releitura, ou seja, contar a mesma história ou moral, por outra perspectiva. Todas as séries eram divididas em A, B, C, D e E, logo, 5 (turmas) x 6 (grupos em cada) x 4 (séries) =  120 grupos participaram do festival de teatro. Escolheram o melhor grupo de cada turma, depois o melhor grupo de cada série e depois o melhor grupo da escola.
Não me lembro exatamente as outras histórias, apenas a história que escrevi, pois não atuei. "A roupa nova do rei" resumidamente conta a história de um rei que se considerava muito esperto, mas foi enganado por um viajante que lhe vendera uma suposta roupa invisível; todos viam o rei nu, ele mesmo se via dessa maneira, porém, não assumia a ninguém, pois dessa maneira teria que admitir que fora enganado. 
Na minha releitura, a história não se passava num reino, mas numa igreja. Lembro-me que tive a preocupação de não ferir ninguém - quero dizer, achei importante dar à igreja um nome que não existia porque não queria que as pessoas que frequentavam um igreja se ofendesse com a história. Olhando agora, eu era uma criança bem sensível, me orgulho por pensar no outro, além do que UGAY trouxe um humor a mais à peça. Substitui o rei pela figura do pastor e o que todos viam, inclusive ele, mas tinha vergonha de admitir, é que ele era gay. A fachada de sua igreja era cor de rosa, ele usava roupas bem extravagantes quando pregava e todas as vezes que ele ia se arrumar sua filha dizia "não me faz passar vergonha" e começava a tocar a música "Perigosa", das Frenéticas.
A peça que eu escrevi ganhou o festival de teatro. Ela jamais teria vencido sem a brilhante atuação dos meus colegas: o pastor, a filha do pastor, a irmãzinha bem crente que desconfiava dele, a igreja que dava glória e aleluia e a pessoa que ajudou o pastor a ser quem era de verdade. Lembro-me que meu professor de história estudava teatro e disse que queria comprar minha peça, mas minha tia disse que eu seria uma grande escritora e não era para vender, no fim eu não sou uma grande escritora, perdi o texto da peça e fiquei sem dinheiro. Mas tenho a memória. Meu professor de Educação Física, era jurado, votou contra a minha peça porque se sentiu ofendido, mas a escola inteira aplaudiu de pé, gritando UGAY, UGAY, UGAY e, hoje, quando vi a imagem dessa igreja, quis compartilhar essa história com vocês.


26 de outubro de 2018

primeiro ponto de vista sobre sp

em sp
cafés não são apenas cafés
você vai aonde vende café
você toma café
e passa 3h conversando
então, quando você diz
"vamos tomar café?"
você está dizendo
"vamos passar um tempo de qualidade?"

sem um lugar cheio de pessoas
eu não me entristeço se de repente
alguém que eu gosto vai embora
sem dar tchau
mas quando alguém
faz questão de se despedir de mim
eu fico realmente feliz,
não pela despedida, pela presença

uma sociedade desumana
gera pequenos-grandes problemas
em um vagão de metrô tem 100 pessoas
está chovendo
os deslocamentos de 3min tornam-se 12min
sem contar as paradas
porque todos os trens à frente estão com problemas
então você "aqui é Sé, deixa eu passar, porra"
os outros vaiam
alguém responde "vai de uber, caralho"
não é por querer que as pessoas são violentas