28 de julho de 2018

interesse

primeiro você se lembra de mim
depois pede que eu vá visita-lo
ao nos encontrarmos você sorri,
então eu escrevo.
você não respondi
trocamos "oi, tudo bem? bom dia"
e no último dia me ignora.
como mulher eu penso:
o que fiz de errado?
apenas não era para ser.

guizos e afins

a resistência é como um amuleto de proteção para vida
isso é uma imagem.
inicio definindo quando definir me incomoda.
se você digitar "resistência" no google imagens
você naturalmente imaginará:
um punho cerrado e erguido em posição frontal,
mas, antes de entrar nas imagens,
você imagina que o google vai propor essas tags
para associar: luta, esquerda, popular, revolução...
quando o que aparece é lorenzetti, fórmula, 220v...
o capital compõem o imaginário social e eu
pressupus seu lugar de fala ao dizer o que imaginaria.
volte ao google imagens e digite "resistência"
você já sabe o que vai surgir: um teste de resistores
isso mesmo, o livro da marília.
marília é poeta antes de ser mulher. mulher e poesia
resistem. angélica resiste e mete o punho no útero
mas essa imagem o google não mostra.
sai do google e vai ao dicionário
1. sf defesa contra o ataque
2. força por meio da qual um corpo reage a outro corpo
3. oposição
4. dificuldade imposta aos condutores na passagem de corrente
agora imagine um guizo e ouça seu sútil som
(um guizo não vai aparecer no google se você digitar
"resistência", nem se você insistir nas inúmeras páginas)
imagine muitos guizos juntos e ouça a potência de seu som.
um único guizo incomoda.
mas se você imaginar um tijolo em queda ao bater no chão
seria possível ouvir o som dos guizos juntos?
uma voz ecoa, mas a voz de uma multidão
permanece na memória e da-se a força do encontro.
se você imagina um tijolo em queda ele se despedaça,
é o que a resistência faz com o poder, ainda que haja som.
seu imaginário transforma o tijolo em moradia
depois em ocupação e assim as imagens se desdobram.
para concluir, imagine um corpo
ele é preto, feminino e gordo?
acho que seu imaginário revela muito sobre você.
nesse encontro o som dos guizos permanecem.


27 de maio de 2018

fama

as pessoas estão doentes
tenho medo de ficar doente.
há um tempo eu estava com todos os sintomas:
ler pouco
perder tempo
ver quem segue quem
verificar quem curtiu o que publiquei
falar muito na 1ª pessoa do singular
declarar amor em todos os comentários e
seguir famosos!

ao dar-me conta disso
comecei o tratamento,
poderia ficar pior,
se chegasse ao ponto de curtir o que não curto,
ter um ponto de vista sobre tudo e achar que é certo
se entristecer ao perder seguidor
viver da vida alheia
ou fingir ser quem não sou
era caso de internação!
o tratamento foi semi-intensivo:
cortei uma rede - a fonte transmissora.

uma vez c. me disse que existe
a curtida motivacional,
não entendi, então ele disse
que é curtir para o outro sentir-se bem.
mas perguntei "você curte mesmo sem curtir?"
e ele me respondeu "eu nem vejo, é automático"
constatei que essa é uma outra forma
da doença se manifestar, nem todos que curtem
leem ou acham linda e relevante a publicação,
aí o pobre coitado que postou se sente especial

é difícil, mas ninguém é tudo isso.
ninguém é tão feliz, ninguém é tão benfeitor
ninguém é tão bonito quando acorda
e se viaja muito, há um mal nisso.
se escreve sobre problemas sociais
quer ser reconhecido e se publica tristeza:
é xingado, pois é prejudicial falar a verdade!
todos querem viver na mentira porque ela
é agradável e escraviza lentamente, não dói.

parte do meu tratamento foi estar presente
pensar se o que publico afeta alguém
publicar menos, LER, cronometrar tempo
seguir quem me importa e se não me importa
que me ensine, porque aprender me interessa
tomar remédio para não ser hospedeiro
identificar quem está moribundo e ajudar.
aqueles que negarem ajuda, me levarão a crer
de que a doença das redes sociais é mutável
e as pesquisas sobre o assunto estão sempre
um passo atrás, portanto protejam-se nos abraços,
leiam livros e não deixem o parasita da fama
se instalar em seus cérebros, talvez não haja cura.





observar

Adulta, preciso cozinhar. Cozinhar "junto" me desperta questões, uma delas é: como aprendi a cozinhar? C. me pergunta qual a medida de água que deve colocar na panela para que o macarrão fique "ao dente", mas eu não sei dizer, só sei colocar, deixar ferver e com o garfo furar o macarrão e perceber seu ponto de cozimento.
Depois C. me pergunta como se corta uma abóbora? Penso: "que pergunta é essa? É só cortar". Ele a corta com sementes, então eu retiro as sementes e ele corta ou se corta. De novo, aquela pergunta: como aprendi a cozinhar? Ninguém me disse a medida dos ingredientes, nem que era necessário retirar as sementes - talvez nem seja necessário, dependendo, a semente lá deixa até mais saboroso o alimento - ou que a comida sem sal, mas com outros temperos fica tão saborosa quanto.
Perguntei a C., como você aprendeu a cozinhar carne? Li receitas no começo, agora eu crio.
Então pensei "eu não crio, faço igual sempre, por que faço assim?", só sigo receitas quando faço torta de limão, cheesecake, etc, o que não é típico do dia a dia.
Mais uma pergunta ao C., sua mãe te incentivava a cozinhar? Não. Sabe, minha avó também não me incentivava, mas eu sei, estranho é que eu não me punha a observar minha avó na cozinha, eu apenas estava lá. Não pensava "vou observar minha avó cozinhar para aprender", não pensava mesmo, mas acho que aprendi, assim, observando inconscientemente e convivendo.
Quando decidimos nos casar, C. e eu, minha avó quis me ensinar a cozinhar, mas, por outro lado, ela queria que eu fizesse tudo igual a ela e eu perdi a paciência, eu observei e criei a partir do que observei e às vezes acho minha comida melhor do que a dela. Não sei dizer porque acho isso tão bonito.
Gosto muito de experimentar comidas diferentes ou os mesmos pratos preparados por pessoas diferentes, como pode arroz, feijão, macarrão, bife, etc. ter tantos sabores? Por que depois que "sei" não continuo observando?

escritor

faz parte do ofício
a solidão,
a melancolia alheia
resta-nos o vazio

28 de novembro de 2017

adolescência (bdd's)



dizer quem somos nunca é fácil.
vamos mudando conforme nossos encontros no tempo.
já escrevi sobre momentos da minha adolescência
e mesmo que essa fase tenha passado há algum tempo
cruzo com ela todo dia, isso me encanta.

o primeiro beijo e uma nova experiência
ou descoberta da sexualidade se dá na puberdade
algo tão prazeroso na contramão da escolha profissional.
deixar de ser cópia dos pais e ter uma identidade.
saber que o Real é mais real do se pensa.
estudar, estudar e querer sair da escola
uma prova insana que pode definir sua vida
presãããããããããão
dizer não
se apaixonar todo instante
reunir as amigas para lembrar das bobagens da infância
(fazer isso a vida toda porque toda fase tem bobagens)
rir.
falar uma língua que ninguém entende
sangrar feito um bode.
ir ao show do seu músico favorito
ter um grupo no qual todos querem entrar.
crises de ansiedade surgem para solidão.
servir
querer entender o sentido da vida
não entender o sentido da vida,
mas entender porque você está no mundo.
perceber que isso acontece quando nos relacionamos.

acho que amo ver vocês viverem. e fim.

7 de novembro de 2017

reconhecimento

conversando com a menina perguntei:
você é negra?
ela disse: acho que não.
pensei: como saber se alguém é negro ou branco
que isso importa?

acho que não sou negra porque tenho pele clara
mas seu cabelo é bem cacheadinho
é, meu pai é negro, mas nunca sofri preconceito
se é afrodescendente é negro?
aquela moça é branca, tem traços finos, mas disse que é negra

talvez eu seja negra, mas não estou pronta pra enfrentar
o que isso implica. não entendi porque aquela moça
disse que é negra. acho que não tem só a ver com o que se vê
é complicado, e se disserem que eu me apropriei da cultura?
conhecer, aceitar, superar, você não vai seguir sozinha.