8 de fevereiro de 2016

o lar tem
cheiro de alegria
sabor de amor
toque de segurança.
sussura paz
vê tudo.

a distância faz sentir na pele
que por fé não há solidão.

sublime

não faz sentido resistir
sem conhecer,
é sublime.

intelectuais dizem
que o sublime causa dor,
a dor é fruto do humano.

o humano está em constante
descompasso com o sublime,
não faz sentido resistir.



quando lacan proferiu
"os quatro conceitos da psicanálise"
meu avô tinha quatorze anos,
aprendia a costurar.
tamara kamenszain escreveu
"bordado e costura do texto",
diz que bordar e costurar são metáforas femininas
mas meu avô era homem e costurava.
eu e ela lemos lacan, meu avô não leu lacan.
ela perdeu o pai, eu perdi meu avô.
inconsciente, pulsão, transferência
repetição, repetição, repetição, repetição...
estes são os conceitos.


15 de janeiro de 2016

janela




pela janela é possível ver quem chega pela estrada de terra. todos os dias, às 10h00, ele saía e lá no final da estrada acenava se despedindo. e ela olhava e acenava também. todos os dias, às 21h00, ele chegava na estrada de terra e acenava, ela o esperava acenando também. qualquer atraso era motivo de preocupação.
todos os dias ela olha pela janela, esperando despedir-se dele e esperando que ele chegue. ele não vem. a última despedida foi no corredor de um hospital, com um beijo e a incerteza sobre a vida. quando a vejo olhar pela janela penso por que ela está ali. esse momento da janela era de ida e vinda,  e o que ela espera é sua conclusão, pois ele foi e não voltou mais.

viagem

desde que j. se foi tenho a impressão
de que quem vai, já sabe que vai
não sei se sabem para onde vão
hoje isso não me interessa
porque céu, inferno é consequência
antes de j. ir comprou um vestido para n.
para ela também comprou uma cozinha
para m. comprou uma calça que ela não gostou
m. tinha tanta certeza que o veria outro dia,
que nem ligou para se despedir.
para e. ele também comprou um vestido,
foi com e. que ele passou a última noite
conversando, rindo com medo
disse que l. era um bom menino
disse que m. era mão fechada
disse que a. era mão aberta
disse que i. era uma figurinha
disse que amou três mulheres n., e., e.
antes de sair j. separou as senhas e os cheques
uma semana antes de sair fez um pedido a m.
"não faça isso com n. ela fica triste"
dois dias antes de sair foi dia dos pais
m. ligava quase todo dia, mas no dia não ligou
m. vai viajar, quer ver todas as letras antes
por um momento pensou "será que vou ir?"
"o que será que quem vai sente?"
n. chora quase todo dia,
olha a janela e espera
m. não sabe o que n. espera
e. liga para m. para desabafar
mas m. não tem o que dizer
a primeira vez que m. foi ao banco foi com j.
a primeira vez que m. foi ao cursinho foi com j.
a primeira vez que m. falou de política foi com j.
e j. foi a primeira pessoa que m. amou e foi.


17 de dezembro de 2015

palavra

há palavras e palavras
há palavras que são impronunciáveis
e isso significa algo YHWH – (יהוה)
há palavras que como mortais
não podemos dizer, pois
ainda não conhecemos a eternidade
"nunca mais", "para sempre"
às vezes palavras não dão conta
do que queremos dizer
às vezes não sabemos como dizer
há palavras que são inefáveis
inefável é uma palavra
há palavras que ditas por personas
tornam-se reais
sou um ditador e digo "guerra"
uma guerra acontece
sou um juiz e digo "condenado"
alguém é preso
sou um médico e digo "morte"
alguém faleceu, uma família enlutada
sou eu sou e digo "luz", "levanta e anda"
as trevas se acabam alguém ressuscita
sou uma menina que ouviu "seu avô faleceu"
sou a mesma menina que tem que dizer
"vó, o vô faleceu", mas eu não disse
minha avó entendeu, preferimos o silêncio
as palavras do eu sou ecoam
"perdão", "graça", "porvir"
quando ele diz está dito
ele é a palavra.

alzheimer



tenho apenas um quarto de século
mas dito assim parece muito.
leio sobre a memória e o tempo
sei que é bom não lembrarmos de tudo.
esses dias eu assisti um filme
cujo nome não lembro agora
mas a personagem tinha quase meio século
ela era linguísta
esquecia as palavras e as coisas
esquecia inclusive o nome do homem
que escreveu esse livro.
esses dias também conversei com uma
brasileirinha oriental
ela vive com o avô, ela é a memória dele
pois não se lembra de nada.
lembro partes da minha infância,
da minha adolescência
esqueço o que comi ontem
o que fiz há um mês...
vejo fotos, relembro momentos
e se com o passar do tempo
me esquecer do que resta?
tenho medo que a doença me faça esquecer
o timbre da voz do meu avô.