você partiu do útero de sua mãe
pequena morte
isso para dizer que
para morrer basta viver
observe. seus cabelos caem
você usa óculos, come pizza,
a memória te trai, ela bate a porta
pequena morte
22 de julho de 2015
pequena morte
cada partida é uma pequena morte
viajamos, mas não sabemos se
voltaremos a ver aquele lugar e tudo bem
cada partida é uma pequena morte
terminamos a graduação, mas
não sabemos se voltaremos a ver os amigos
cada partida é uma pequena morte
doamos aquela roupa velha, mesmo a que gostamos
porque podemos substituir
cada partida é uma pequena morte
ganhamos flores, mas não nos damos conta
de que as pétalas caem e a vida se vai: lixo
cada partida é uma pequena morte
você se casa e aquele seu antigo lar
se foi, apesar de continuar no mesmo lugar
cada partida é uma pequena morte
morte essa que aceitamos por
não saber que se trata de morte
cada partida é uma pequena morte
e apesar das mortes cotidianas, não nos preparamos
quando essa partida envolve amor profundo: luto
viajamos, mas não sabemos se
voltaremos a ver aquele lugar e tudo bem
cada partida é uma pequena morte
terminamos a graduação, mas
não sabemos se voltaremos a ver os amigos
cada partida é uma pequena morte
doamos aquela roupa velha, mesmo a que gostamos
porque podemos substituir
cada partida é uma pequena morte
ganhamos flores, mas não nos damos conta
de que as pétalas caem e a vida se vai: lixo
cada partida é uma pequena morte
você se casa e aquele seu antigo lar
se foi, apesar de continuar no mesmo lugar
cada partida é uma pequena morte
morte essa que aceitamos por
não saber que se trata de morte
cada partida é uma pequena morte
e apesar das mortes cotidianas, não nos preparamos
quando essa partida envolve amor profundo: luto
20 de julho de 2015
coração
uma avó estava internada em um hospital. a neta, pequenininha, não podia visitá-la. a avó ficou tanto tempo lá que, para a menina, só restavam lembranças. as mais doces lembranças.
um dia a menina foi com a mãe visitar o tio. ao chegar lá, cumprimentou o tio e viu que tinha uma pessoa deitada em baixo do edredom. ao descobrir a menina viu a avó, ainda fraca, mas viva.
a menina chorava intensamente e dizia "eu tô feliz, vó, eu tô feliz!", a avó respondia "eu também, meu amor, eu também.", "eu senti tanta saudade, vó, você conseguiu", "eu sou sua, meu amor, eu sou sua.", "eu não tô acreditando, eu tô tão feliz, era tanta saudade, vó", "eu consegui, meu amor, eu consegui, eu sou sua, eu consegui por você", ambas permaneceram chorando e se abraçando por minutos que se eternizaram.
eu sou uma neta, não tão pequena assim, que tem um avô internado em um hospital. e desejo que esses minutos de reencontro sejam eternos para mim. hoje eu li sobre luto e melancolia, em alguma medida sempre me senti melancólica, em contrapartida nunca estive preparada para o luto. fronteiras sentimentais que ainda não posso romper, não mereço romper e não quero romper. quero chorar de alegria. "vô, o meu coração é seu."
um dia a menina foi com a mãe visitar o tio. ao chegar lá, cumprimentou o tio e viu que tinha uma pessoa deitada em baixo do edredom. ao descobrir a menina viu a avó, ainda fraca, mas viva.
a menina chorava intensamente e dizia "eu tô feliz, vó, eu tô feliz!", a avó respondia "eu também, meu amor, eu também.", "eu senti tanta saudade, vó, você conseguiu", "eu sou sua, meu amor, eu sou sua.", "eu não tô acreditando, eu tô tão feliz, era tanta saudade, vó", "eu consegui, meu amor, eu consegui, eu sou sua, eu consegui por você", ambas permaneceram chorando e se abraçando por minutos que se eternizaram.
eu sou uma neta, não tão pequena assim, que tem um avô internado em um hospital. e desejo que esses minutos de reencontro sejam eternos para mim. hoje eu li sobre luto e melancolia, em alguma medida sempre me senti melancólica, em contrapartida nunca estive preparada para o luto. fronteiras sentimentais que ainda não posso romper, não mereço romper e não quero romper. quero chorar de alegria. "vô, o meu coração é seu."
https://www.youtube.com/watch?v=nmv1QYLcgNY
13 de julho de 2015
conversa
a JoutJout
eu sei que você a viu.
ah, eu seu que você a viu e ouviu. foi bom. você refletiu.
sim, quando você tinha sete anos, tinha dentes tortos, usava óculos e chiquinhas.
mal sabia que, apesar desse ser pavoroso, eram seus melhores momentos.
tem recordações de um menino chamado w. que era belo e hoje é um terror.
aí teve festa junina, você foi de calça jeans e uma camisa de bolinhas.
e ainda queria que o g. te olhasse... você mudava de uma série para outra
lembra da professora e.?
você descobriu que mesmo na faculdade existem professoras assim
talvez mude a letra de e. para p., mas elas existem, mesmo sendo raras
e você o que vai ser? médica. paquita da xuxa (hoje funkeira). musicista. professora.
você tinha tanto piolho. veja a vantagem de crescer
quando era criança vivia rodeada de gente, só porque era inteligente
e agora vive sozinha pelo mesmo motivo.
pensava em casar, ter filhos... e que maravilha: você casou, todos têm esperança
sua primeira leitura de verdade foi "o primeiro amor de laurinha",
mas não acredita que isso possa ser real, né?
foi sua iniciação, por isso gosta tanto de ler.
eu não queria ser você.
esses cabelos lisos e esses óculos que não te deixam.
pelo menos arrumou os dentes e não usa mais aquele vestido amarelo horrível
como será que você vai estar quando nos vermos novamente? velha com certeza.
você lembra da peça que escreveu na oitava série?
"a roupa nova do pastor", causou uma loucura no colégio.
isso porque tinha um gay, imagina se essa peça fosse apresentada hoje...
e as saias jeans que você usava para ir à igreja? menina, não precisava ser tão feia
a vantagem do tempo é que as espinhas foram com ele.
e um benefício genético: você nunca foi gorda.
eu não esqueci o bem do tempo na sua relação com seus pais
eu sou justa com o tempo, talvez não seja com você.
você precisa mudar, cadê aquela vivacidade de criança?
agora pensa demais, e está estática
aprenda a ver o hoje sob outra ótica
e daqui alguns anos conversamos novamente,
já que a juventude não é eterna.
1 de junho de 2015
aprendizagem
há dias meu velhinho pediu que o levasse para ver o tio. pela primeira vez eu fui sem reclamar de nada, e não me orgulho disso. eu tenho prazer em agradar meu velhinho, mas encontros de família desconhecida... fomos. ao chegarmos, vi que o tio dele estava vendendo saúde e não soube qual impacto isso traria, afinal meu velhinho está muito doente. não suporto vê-lo assim, eu não quero atender seus pedidos porque ele pensa que são os últimos, quero apenas vê-lo bem. seu tio nos recebeu com tanto anelo que em nenhum momento pensei "que saco, estou aqui", na verdade gostei muito de conhecer parte da família desconhecida e percebi que perdemos muito ao evitar certas experiências. há muito tempo não vivia uma tarde preciosa como aquela. o tempo ensina muito. quando todos estavam reunidos, compartilhavam suas histórias, ensinamentos e quanta aprendizagem! o tio do meu velhinho, mais velhinho que ele, foi quem o recebeu em sp quando veio do interior de pernambuco. ele nos contou as humilhações que sofrera por pedir emprego em tantas portas e as constantes negações, até que se ajoelhou, pediu a Deus que lhe desse uma oportunidade e finalmente conseguiu. com orgulho, disse que o pai o ensinou nunca roubar, passar fome, mas nunca fazer algo que possa ferir o outro. meu velhinho, para o tio, só pode ser um homem grato. sua família, que em alguma medida é a minha também, foi tão atenciosa, preparou um almoço que por mais simples que fosse foi delicioso porque sentíamos o sabor da alegria em receber aquela visita inesperada. onde come um, comem dois, três, quatro, quantos tiverem. naquele dia o tempo passou e eu nem vi. na verdade os últimos dias tem sido assim, tenho tido experiências tão pequenas que causam transformações tão intensas que me desconstroem e eu nem percebo o tempo passar. eu envelheço também e vejo que sei tão pouco... quando saímos de lá só haviam sorrisos de ambos os lados, meu coração fervia e o meu cérebro não parava de pensar, permaneci calada. houve um tempo em que falava demais, hoje prefiro ouvir e sou uma pessoa melhor. eu não sei quanto tempo de vida ainda resta para todos os personagens dessa história, mas sei que todos viveram honestamente, com amor, fé, trabalho, e orgulham-se de contar suas histórias que perpetuarão de geração à geração, numa mesa que te espera para ensinar mais sobre a vida.
memória fraterna
eu e ele somos irmãos
irmãos que o destino escolheu
dezoito anos nos separam
dizem que virei gente
quando ele nasceu
[tudo porque por ele faço tudo,
e ninguém precisa pedir]
antes eu não sabia dizer
"eu te amo"
agora eu distribuo, e de verdade.
ele é tão puro!
há sete anos eu o via todo dia
e que alegria!
com ele aprender a viver é certo.
eu lia livros, contava histórias
e ele disse à professora
que aprendeu poesia com a irmã.
há dois meses eu me casei
e ele correu para levar as alianças
disse que correu porque eu estava
com pressa
a verdade é que o tempo passou
e eu nem vi, mas vivi.
ontem ele dormiu aqui em casa
e eu senti saudade,
mesmo levando ele toda sexta
ao taekwondo.
eu não quero que ele cresça
e me esqueça.
sou a medrosa dos sentimentos
refém do tempo.
11 de março de 2015
família
durante muito tempo eu quis um lugar
para chamar de meu
hoje eu sei que sempre tive esse lugar
eu olho as paredes do meu quarto
e os objetos que têm nele,
lembro que odiava saber que alguém entrou e mexeu
há um tempo na vida no qual o desejo é estar só
longe da família
depois vem outro no qual só se quer estar perto
ninguém morreu
mas eu queria ter estado mais com minha mãe
dito a minha avó que a amava
e demonstrado ao meu avô
a admiração que tenho por ele
aos meus tios eu queria dizer que são meus
exemplos e ser um pouco mais doce
eu só soube ser eu mesma com meu irmãozinho
todos me amam muito e de graça
a minha irmã sempre foi linda, independente
e eu tenho muito orgulho de quem ela é
nesses últimos tempos estamos tão juntas
fico feliz que ela participa de tudo e porque quer
faltam poucos dias para a minha vida mudar drasticamente
e meu primo que peguei no colo será meu padrinho
eu sinto como se fosse a ambiguidade
estou feliz - apesar de insegura
e ao mesmo tempo triste porque cada momento
se aproxima do último
logo será o último café, a última novela
hoje eu não sinto vontade de responder ninguém
só olhar
olhar o que representam as rugas e os cabelos brancos dos meus avós
a disposição e a força da minha mãe e da minha tia
observar e agradecer
a sorte de ter a família que tenho
uma família que foi continuamente feliz
com muito ou pouco
que cuida um do outro, repreendendo sem falar mal
quem eu sou - mesmo que não saiba tudo
é formado por características de cada um
honestidade, solidariedade, carinho e fé
são traços nossos
lá no fundo eu tô com um medinho
mas ouvir vocês e tê-los ao meu lado
- mesmo que não seja mais diariamente
me dá a certeza de que o futuro promete: felicidade
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