17 de fevereiro de 2015


Ele é alto. Magro. E não era dentre os rapazes o que mais chamava atenção, mas sem dúvida era o mais educado. Suas roupas eram sempre as mesmas. Um estilo meio nerd, mas cheio de humor. Ele a conheceu e se interessou pela inteligência e por algo que talvez nem ele mesmo saiba explicar, mas acho que não foi pela beleza, ela é excêntrica.
Construíram uma história linda, cheia de amor e mais um pouco. Amigos em toda a parte, risos, lanches, descobertas espirituais e caminharam durante muitos anos. E durante esses anos algo foi se perdendo, se perdendo até que a plantinha morreu... entre sins e nãos ditos nas horas erradas, como toda bela história, passou pelo final feliz, ali bem pertinho, mas desviou-se, e caiu no desgaste.
Separaram-se.
Foi um percurso com muitos acertos e muitos erros. E esses erros procuraram ser consertados. Voltaram. E as portas do casamento ele pensa estar sobre o controle de tudo, sente que ela jamais terminará com ele e acha que pode fazer o que quer como curtir todas as fotos da mesma menina. Isso a faz sentir desvalorizada, desrespeitada e terá consequências...


16 de fevereiro de 2015


nessa poética o eu lírico é sempre eu
mesmo que eu fale de outros
numa reunião pediram-me
"defina sua vida em uma palavra"
e eu disse: rejeição
o outro disse sobre mim
acolhimento
mas não queria pena
eu queria conquistar porque merecia
eu tenho amiga que já apanhou do namorado
amiga que já foi do amor livre
amiga que namora o mesmo rapaz
desde os treze anos (hoje temos 23)
amiga que quer porque quer um namorado
e eu cansei de mendigar amor
os outros não cansam de dizer que estou magra
hoje vi uma imagem minha e me horrorizei
sinto-me cansada todos os dias
e fraca
com dor na cabeça e nas costas
talvez esteja morrendo
e essa poética já não será sobre mim

15 de fevereiro de 2015

há cerca de um ano um colega de igreja
disse ser gay
todos desconfiavam
mas ninguém dizia nada
há suspeita de que há vários gays na igreja
por que estão lá?
esse colega disse que negou ser gay a vida toda
ouço murmurinhos de gente dizendo
que se nasce gay e que se torna gay
uns culpam a biologia, outros a psicologia
mas a maioria culpa deus ou o diabo
soube há poucos dias que esse colega gay
foi abusado sexualmente na infância
tenho um outro colega que quase foi abusado
mas reagiu e hoje não é gay
isso tem alguma relação?
eu estava revisando um livro logo cedo
sobre um poeta marginal que é gay
é normal entre os queers, beats, malditos
no livro ele dizia que também foi abusado
isso tem alguma relação?
eu assistia a tv aberta e só passava comerciais femininos
divulgaram que morreu a susana de moraes
filha de vinicius de moraes
namorada da adriana calcanhoto
personalidades. eu gosto dos três
mas não sabia que as duas eram amantes
não sei nada sobre o sentimento gay,
mas imagino que seja semelhante ao hetero
depois de revisar o livro pensei no trauma
freud sabe explicar o que é o trauma, a libido, o recalque
o complexo de édipo e todo esse lance de sexualidade
isso tem alguma relação?
na faculdade de letras todos esperavam
a chegada de um professor gay
não vejo sentido
há lugares, cursos ou roupas apropriados ou não para gays?
não vejo nenhuma relação


minha escrita tem uma profunda
relação com a tristeza
eu mergulho no mar da melancolia
sem acreditar que existe
um oceano de felicidade
eu desejo ir para bem longe
acho que como as noivas
eu não sei dizer 'não'
sofro calada e se falo
sou condenada por um erro
que não cometi,
para outro estou sempre errada
e eu estou cansada de pedi perdão
não paro de escrever
meus textos ao mesmo tempo
em que me fragilizam
são meu escudo
eu penso e repenso e argumento
e parto para um lugar onde esteja só
lá, ninguém vai me magoar
desconhecidos não nos magoam
só os bem conhecidos
então eu paro de escrever
mas os textos antigos
são publicados
e a dor que ficou para trás os lê
desejando ter sido amor
finalmente eu molhei os pés
no oceano da felicidade


na casinha já houve amor,
confiança
paciência
as flores exalavam
bondade
carinho
mas veio uma chuva forte
e rachou uma parede da casinha
nessa rachadura
teve infiltração
e tudo ficou num mofo só
o cheiro era de tristeza
mentira
dor
e a moça ficou só
quando a casinha desabou

14 de fevereiro de 2015

confiança



sobre a mesa há um vaso
quem o colocou ali foi você
juntos, com a mão no barro
o construímos
cheio de capricho, amor
mas você deixou que outras
de
rru
ba
ssem
e por mais que tentássemos
reunir os pedaços
nosso vaso nunca mais foi o mesmo

28 de janeiro de 2015


eu nunca escrevi sobre você
apesar da sua presença nas minhas mais belas memórias
me admira sua delicadeza
me incomoda sua obediência
me irrita sua fraqueza e complacência
mas me agrado da sua companhia
apesar de desejar que vá para bem longe
para um lugar onde não haja loucos
onde possa estar liberta de quem te oprime
de quem pensa ter razão e está cheia de demônios
sinta o amor de quem os impede de chegar até você
e viva, viva, em paz, até a eternidade: nos vemos lá!