25 de agosto de 2013

19 de agosto de 2013

Adorno

Tem odor Adorno firmou com a Arte um
drástico acordo de driblar o demônio pelo
dístico idílico. Partiu com dor e o condor o
levou com a divida, a dúvida e a dádiva de mudar.

Ao saber da vida do ditador e da morte
do trovador que, sem pôr adornos, escondia
com ardor os escritos andores do campo
a dor de Tem odor Adorno virou dor doída

Assim a filosofia efervescia, a polícia invadia
e ficou impossível escrever poesia.

7 de agosto de 2013

Amor platônico


 Quase graduado em filosofia, Platão estava a procura do tema ideal para sua dissertação de mestrado. Platão observava as pessoas e o mundo ao seu redor, sentia-se apto para estudar suas relações, julgava-se impenetrável. 
Conheceu Diotima. 
Diotima era professora. A disciplina que ministrava, com frequência, era sobre o AMOR e a pesquisadora era uma referência no tema.
Platão já ouviu diversas teorias sobre o amor, mas ao ouvir Diotima, logo na primeira aula, identificou-se e decidiu o que gostaria de analisar. A cada dia Platão se interessava mais sobre o assunto. Ele ouvia as canções feitas por Diotima, frequentemente passava em frente a sala da professora, olhava mais de uma vez ao dia os emails que trocava com ela sobre dúvidas da matéria e finalmente adicionou-a no facebook. Platão entristecia-se nas demais aulas, pois contava os dias da semana para rever a professora e assistir suas aulas. Ainda que muitos apontassem os defeitos de Diotima, Platão os recusava, desacreditava e todos percebiam que Platão estava decobrindo algo.
Durante as discussões, o filósofo achava absurda a forma como o amor foi concebido. Indignava-se com a corruptibilidade do ser humano, pensava "Como pode o Homem abrir mão de suas virtudes  e da vida transcendental pelo simples prazer? Que prazer é esse?" (mal sabia ele que Freud explicaria isso muitos anos depois), mesmo assim ele permanecia aos pés de Diotima.
Disseram-lhe: "Platão, você está descobrindo uma nova modalidade do amor!" (talvez fosse por isso que a tal professora era uma referência sobre o tema, mas...), ele não deu confiança ao que lhe diziam e contemplava Diotima discursando com os demais filósofos, em conversas mais intimistas no café, rindo, caminhando sob a luz do sol, e quando ela o cumprimentava ele ficava sem jeito. Uma vez Sócrates disse a ele que Diotima dava aulas práticas sobre o amor e não recusava alunos, mas o pobre Platão sentia que a professora nem o notava e dentro de si havia uma imagem perfeita atribuída a Diotima e ele não gostaria de destruí-la. Sofria. O semestre estava acabando e a cada dia sentia-se mais distante de tudo, assim o filósofo mergulhou nos estudos até livrar-se daquilo que estava sentindo.
Por Diotima, Platão conquistou os seguintes títulos: mestrado, doutorado, pós-doutorado e livre docência. Sua ideia reverbera há milênios, tornando-o o famoso filósofo, já consagrado, com a tese do amor platônico.


Amor platônico é, na acepção vulgar, a ligação do amor ideal de Platão, que compreendeu o amor como algo essencialmente puro e desprovido de paixões, sem fundamentos sexuais.

5 de agosto de 2013

Morte

Pôs a mão no peito, não era amor o que sentia, era dor. Essa dor foi de peito em peito e quando todos viram, estava no chão, de olhos fechados, matando cada um.

Destino


Sente a necessidade de ter um lugar só seu. Necessidade de caminhar e não correr o risco de encontrar algum conhecido. Necessidade de tomar um café, observar pessoas, paisagens. Necessidade de olhar pela janela tendo a liberdade de atentar-se para as coisas mais banais, sem ser indagada sobre o que está pensando. Necessidade de olhar um mapa, marcar os pontos mais absurdos, nada turísticos, e percorrê-los, enquanto satisfações não precisam ser dadas. Necessidade de fazer ligações para o outro mundo por afeto e não por obrigação. Necessidade de dormir para sonhar com a possibilidade de mudar a realidade que a aprisiona. Acorda. Nem nos sonhos vive suas necessidades.  

Coração


Caminhou por um tempo e finalmente chegou à rua quatro. Lá era o ponto de encontro. Estava bem vestida para o evento. Uma das mãos segurava o coração, a outra segurava a maçaneta que estava prestes a abrir a porta. Todos a aguardavam, principalmente a vida. Percebeu que insistir era cômodo. Desistir era enfrentar o mundo. Rememorou. Parou e olhou para si. Não se reconheceu. Vivia outra vida. Ainda parada, esperava incerta. De repente abriram-lhe a porta e com o susto estourou o coração. Ganhou um presente e sorria com os olhos marejados. Receberam-na como uma princesa e escolheram tudo por ela, pelo bem do reino. 

6 de julho de 2013

Separação


Houve um tempo em que a narradora chamava todos de flor e naturalmente a viam como uma flor, uns sentiam seus espinhos, mas a maioria sentia a delicadeza de suas pétalas. Pensando nas características de uma flor, a narradora avaliou e dentre todas as flores do seu jardim, que está morrendo, devido o tempo, percebeu que havia uma que resistia a todo inverno. 
O primeiro inverno pelo qual a flor das flores passou foi difícil, parecia que não ia sobreviver. No entanto a narradora observou que em volta da flor das flores tinham outras duas flores, uma pequenina a dava o suporte e a outra majestosa, mas um pouco velha, a protegia. Dessa maneira a flor das flores sentia um vento aqui, outro ali, mas nada que a desfalecesse.
Durante as quatro estações a flor das flores era aquela que procurava a harmonia do jardim, se uma flor dissesse "esse seu tom violeta, diante do meu rosa é horrível", a flor das flores apaziguava, dizia a Rosa que seus espinhos feriam, e à Violeta dizia para não aborrecer-se, pois a Rosa era glamourosa, mas não tinha sua força. Assim, conservava-se a amistosidade do jardim, sempre.
Um dia uma árvore perguntou à flor das flores porque ela não tinha espinhos, mas ela não soube responder, só enxergava os espinhos como ataque e não como defesa. Então plantaram um cravo. O Cravo imponente observava a flor das flores, aproveitava o curso do vento e mandava recados à flor das flores através de suas pétalas, e de recado em recado, ela se apaixonou. O jardim estranhou. Ninguém sabia dizer o que a flor das flores tinha para ser a flor das flores, ela não era a mais bonita, nem a mais forte, nem a mais cheirosa, mas mantinha a sua essência de delicadeza, sensibilidade e bondade inigualável às demais. O Cravo era popular demais, todas o admiravam, e conforme o curso do vento mudava, os recados eram enviados às outras flores, enfim. No dia que o pólen da flor das flores se unia ao do Cravo, ele a furou profundamente com um espinho, o jardim ficou hipnotizado, mas com tanta doçura a flor das flores preferiu entender que foi sem querer e pensou consigo "todos temos de conviver com espinhos", e de furo em furo, a  flor das flores sofreu durante muitos anos.
Chegando no limite, a flor das flores observava a narradora e pensava "por que ela não coloca um personagem que corte o Cravo daqui?" e no mesmo instante, apareceu o Jardineiro que cortou o Cravo e o levou para uma floricultura. Finalmente a flor das flores voltava a ser feliz, havia dias de tristeza e solidão, mas o jardim se alegrava com ela e as duas flores plantadas ao seu lado permaneciam firmes, então todo o lamento era esquecido.
Passaram-se alguns anos, de plantio em plantio muitas flores passaram pela flor das flores, muitos foram encantados por ela, mas ela não se sentia feliz, sentia falta de uma flor para amar, sentia falta de ter uma flor que a amasse. Desejou do fundo da alma que o Jardineiro plantasse outra flor no lugar do Cravo, então imediatamente um Cardo foi plantado ao seu lado. Dessa vez o jardim não estranhou, pelo contrário, exultou, os pássaros cantavam, todas as flores exalavam um cheiro suave, as abelhas distribuíam o mel, e para a concretização do pleno júbilo, o beija-flor fez a troca dos polens e algum tempo depois nasceu uma Gérbera. Tudo estava lindo.
As duas flores que acompanhavam a flor das flores meditavam, estavam receosos e o jardim não compreendia. Elas preocupavam-se porque estavam morrendo e não tinham plena confiança no Cardo. O Cardo não furava a flor das flores, mas também não fazia carinho, não dizia as palavras que ela merecia ouvir, não cuidava da Gérbera, não respeitava as flores mais velhas, e sentia que por ser mais jovem deveria aproveitar a vida, arrependera-se da união com a flor das flores. Sábias são as flores mais velhas. 
A flor das flores cansada de iludir-se, tentando encontrar explicações plausíveis para as atitudes do Cardo,  com aquele jeitinho que só ela tem, perguntou-lhe o que havia de errado e ele lhe respondeu "eu não te amo mais e não sei há quanto tempo". A flor das flores chorou. Chamou o beija-flor e disse-lhe "por que as flores me usam e depois querem me jogar no lixo?" e o beija-flor chorou. E a Violeta chorou. E a Rosa chorou. E a Azálea chorou. E a Dália chorou. E a Açucena chorou. E a Camélia chorou. E foi um chororô... Mas a Gérbera não sabe de nada.
O jardim inteiro quer que o Cardo vá embora, o jardim inteiro quer que o Jardineiro pegue a flor das flores e a leve para um jardim onde haja Clematice, Coroa Imperial, Íris azuis e brancas, Câmpanula, Alfazema, Amarílis... o jardim quer que ela conviva com outras flores para aprender novas coisas sobre a vida. Chega de invernos!
A narradora não sabe se essas flores podem ser plantadas juntas, mas sabe que é preciso. A narradora está longe da flor das flores, mas o Jardineiro não, o Jardineiro sabe o que é melhor para a flor das flores e a seu tempo o fará. Bom é que dessa vez a flor das flores não se sentirá sozinha, pois a Gérbera sempre estará com ela.