30 de maio de 2013

testemunha


Digo "Oi", mas não ouço resposta.
Olho em seus olhos e me dizem tudo.
Vejo-o morto, caminhando até mim.

Os humanos ainda me surpreendem.

Está enclausurado nas lembranças
lembranças que outros esqueceram.
Quem pode falar: nega. Então leio.

Rememorar é não repetir o horror.


16 de maio de 2013

irmãs


Há alguns anos atrás escrevia para falar das complicações de nossa relação por sermos tão diferentes. Ouvia dizer que na verdade éramos muito parecidas. Discordava. E você ao ler, se irritava. Mas ainda que pouco, tínhamos esse tempo juntas nem que fosse para brigar.
Sempre ressaltaram nossas diferenças. Minha pela branca e a sua morena. Meu cabelo liso e o seu ondulado. Minha gordice e a sua magreza. Meu pequeno tamanho e a sua grandeza. Te chamava por um nome que nunca ninguém de te chamou. Isso é intimidade.
Via, às vezes escondido, você orgulhosa falando de mim para as pessoas e tudo que queria era ser digna de todo esse orgulho. Também queria que me visse falando de você. Relação de irmão é assim matando e morrendo um pelo outro. Nas poucas vezes que nos vemos, observo que seu dia não é fácil, é o trabalho, são os estudos, os sentimentos e daqui uns dias decorará minha casa: eu caso. Mas tudo isso só pode ser feito se você aceitar se cuidar e parar de brincar com a saúde. Te quero bem e não me faça chorar. Crescemos e descobri que na verdade somos mais parecidas do que pensávamos. 

21 de abril de 2013

Fogueira



Todos reunidos. Fechamos os olhos. Estamos aquecidos. É noite. Só existe isso. O que está fora daqui é nossa missão. Ainda de olhos fechados ouvimos o som dos bichos na mata. Imagino suas mãos afáveis,  traçando os limites para que eles estejam ali e nós aqui. Imagino suas mãos nos acariciando através da natureza. O vento nas árvores. Sentimos a brisa. Isso é poder. Isso é real. Quanta proximidade. Quanta intimidade. Quanta delicadeza de sua parte em vim nos visitar de um jeito tão especial. Quanto tempo esperávamos por você ou você esperava por nós. Impressionante é imaginar que tudo isso foi criado com a leveza de suas mãos.  Desfaleço-me ao pensar que na sua imensidão tem prazer de estar conosco. Nossas lágrimas rolam, aprendemos com sua doce voz. Agora há silêncio. Meditamos. Fomos transformados. Quebrantados. Ficamos assim diante do seu amor. De joelhos e sem palavras.

29 de março de 2013

Recanto



Acordou. Pôs meias nos pés e pensou o que fazer do dia. Separou um livro. Preparou o chá. Ao forno: pães de queijo. Abriu o roupeiro e visualizava sweaters, vestidos floridos, coletes, cachecóis, casacos xadrez, muitos shorts e calças de cintura alta, mas poucos jeans. Na dúvida entre vestir-se e pegar o bonde, digo ônibus, ou continuar em casa, pegou a colcha de retalhos e cobriu-se. Pensou: "vou ouvir música!" Clássica? Não sabe. Apenas pôs-se a ouvir o primeiro disco na vitrola. Pães de queijo prontos, chá, quer esquentar-se do frio que faz lá fora. Ao término, saiu de pijama e pegou o jornal. Pôs-se a ler, mesmo com a música tocando. Lia notícias sobre a juventude e pensava: "a que juventude pertenço? Juventude? Sou jovem?" Na madrugada em que dormia, sozinha, jovens morriam acompanhados. E hoje, em sua calmaria, ela lê ouvindo música clássica. Que jovem é essa? Fecha o jornal. Observa sua casa, pequenina, mas aconchegante. Vai à janela e vê jovens brincando com a neve. Jovens brigando. Jovens namorando. E enquanto observa algum riso lá fora, só consegue ver felicidade no casal de velhinhos, que está de mãos dadas, bem agasalhado, sentado num banquinho da praça de árvores secas, porque nem a natureza sorri. E ela está sozinha. Deixa de observar o fora e passa a observar dentro. Seus móveis ornamentados, num estilo provençal. Cores sóbrias. Flores. Uma estante repleta de livros. Lembra-se do livro que separou, ao pensar na primeira coisa do dia. Pôs seus óculos e iniciou a leitura. Foi assim que o tempo passou, e ela, sem dar-se conta, estava envolvida pela leitura. De repente pensou, feliz: "tenho 22, mas gosto de minha velha juventude". Foi assim que ela pôde se encontrar, nessa leitura que durou 30 anos, o que fará quando olhar-se no espelho? Talvez se agasalhe para ir à praça esperar um velhinho que lhe dê as mãos. Risos.
à Madame de Steal


se estou no Norte escrevo sobre a neve
se estou no Sul escrevo sobre o Sol
que me impede de estar no Norte e escrever sobre o Sol
ou estar no Sul e escrever sobre a neve?

Eles


Há alguns sábados à tarde não a via.
Tinha uma leve impressão de que não gostava de mim (normal, sempre penso isso das pessoas). Logo, não tinha a liberdade de me aproximar.
Sempre ouvíamos que não devemos nos misturar, culturas diferentes, crenças diferentes e muita coisa diferente sempre termina mal. Era o que ouvíamos. E assim começa a história.

Num domingo ela chega. Senta afastada do grupo. Está de mãos dadas com um rapaz que todos, mesmo alguns tentando disfarçar, outros escancarando o julgamento, olham dizendo "quem é ele?", "como assim? De mãos dadas?", "o que significa isso?", e como alguém, que nunca deu muita importância para o que os outros pensam ou dizem, ela sorria, como se fosse a adolescente mais feliz do mundo.
Ao terminar a celebração, ela levantou-se, de mãos dadas com ele, sorriu para todos, foi até e mãe e os três foram embora juntos (cena que se tornaria bela e frequente).

Mais um domingo, ela chega. Senta afastada do grupo. Está de mãos dadas. Ouve-se, vê-se murmurinhos, mas uma coisa intriga: seu sorriso. É um orgulho tão grande e uma felicidade resplandecente que ninguém entende. Observemos: ele tem piercing no nariz (na comunidade ninguém usa piercing), ele, como um estranho, deveria no mínimo sorrir, mas parece que está ali apenas para agradá-la. De qualquer forma, está ali. É o que importa para ela.

Um, dois, três, quatro, vários domingos. Criou-se uma simpatia. Algo mudou aparentemente. Críticas surgiram? Várias. Mas não importa. Já há uma simpatia. Um domingo diferente. Músicas bonitas, palavras sinceras e de repente alguém levanta a mão. Ela chorava e sorria. Era ele. Todos que a amavam sorriam. Se algo aparentemente tinha mudado, agora tudo mudaria.

Passou-se um tempo e agora ambos sentam no grupo. Ambos fazem tudo juntos. Agora pode ser que ele vá no domingo e ela não. Amizades verdadeiras foram consolidadas e percebeu-se que aquilo/aquele diferente pode ser bem melhor do que o comum, aprendeu-se com ele. Basta respeitar. Confiar. Acreditar.

Ele a pediu em casamento. Tão novos, mas completos. Sonhando e realizando. E ao lembrar daquele primeiro domingo, fica o sentimento de que tudo vale a pena, se você seguir amando e evidenciando isso com um sorriso.