3 de janeiro de 2013

Mulher




a quem pertence o corpo da mulher?

arraste-a sob a pedra lascada!
decifre ou devore a bela Musa.
a burguesia diz: cale! Não traia!

uma lê contos de fadas e sonha,
outra escreve literatura feminista
trabalham e 129 morrem, dia 08.

estudam e votam, mas são mudas
cobro. sem esporte vão para casa
e Simone reflete sobre todas. sexo.

igualdade. liberdade. política.
saúde. aborto. violência.
delegacia: quem ama não mata

a quem pertence o corpo da mulher, Penha?

2 de janeiro de 2013

Agora na Casa



Procuro a rosa 
e sei onde está
Pela rosa encontro
o que na verdade procuro. Prosa 

que em poesia está a florescer
ainda, sob tanta metáfora;
certo é que quando as procuro 
vou me reconhecer
 

como diante da infância
princípio de embasamento
sem nenhuma palavra
mas cheia de lembrança.
 

Hoje talvez possa então
escrever sem porquê,
sabendo a mesma e nova razão
de estar entre a pena e o Pina que não se vê.

24 de dezembro de 2012

Uma festa

No princípio estavam reunidos mãe, "pai" e filho.
Para conhecê-lo foram convidados seis amigos, homens que carregavam cetros. Três para guiar ovelhas, três para guiar povos. Seres sobrenaturais cantavam.
Mesmo com tanto poder havia singeleza de coração, propícia para o lugar.

As alegorias indicavam: não há o que temer. Há paz. Há amor.

No fim estavam reunidos "mãe, pai e filho".
Amigos foram convidados apenas para compartilhar presentes. Mostraram a mirra, o ouro e o incenso. Músicas tocavam. Mesmo sem nenhum poder, havia arrogância no coração, inadequada para o lugar.

As alegorias indicavam: há o que temer. Não há paz. Não há amor.

E depois do fim, o que virá? A esperança segue:

Depois do fim estavam reunidos mãe, pai e filho.
Para a festa todos foram convidados, preto, branco, pobre, rico. Eram iguais. Havia singeleza de coração e por isso havia poder. Da alegria surgia a música. Não havia presentes, pois a companhia e o riso uns dos outros era o próprio presente. Não esperavam o ano todo por uma festa, porque a vida era uma festa.

Desfeita


Foi você quem ele esperou na festa
A meia noite ao vê-lo triste, chorei
me perguntei que consideração é esta?
O abracei e jurei que não esquecerei.

19 de dezembro de 2012


Palavras podem representar ações ou até antepô-las.
Palavras são como flores.

_ Como são as flores?
_ São delicadas e cheirosas, mas podem ferir com seus espinhos.
_ Onde estão as flores?
_ A beira do caminho, sob os trilhos.
_ E as palavras?
_ Também.
_ Vai colhê-las?
_ Sim.
_ Veja aonde elas estão.
_ Tudo bem, não importa.

Flores colhidas, palavras feridas, escolhas feitas.
Um misto de angústia e paz são as palavras ou as flores, ou até os sentimentos que representam esse suicídio.

(Talvez o trem passe, na verdade passou. Pra onde as levou? As palavras e a pessoa, não sei, mas as flores estão em seu túmulo agora.)

_ Queridos, como sabem vou viajar.
_ Vai pra onde?
_ Paris.
_ Que delícia!
_ É, vai ser sim. É à pesquisa. Quer dizer, se meus meninos deixarem.
_ Mas seu esposo não vai com você?
_ Mas ele é o mais menino de todos, ele é quem me preocupa.
_ Quanto tempo?
_ Dois meses.

(E lá vai ela e não eu, é a fragmentação do sujeito pelos lugares que passa. Sempre fica um eu e sempre volta uma outra.)

27 de outubro de 2012

Viagem

"Queria atravessar, mas sabia, não podia
de experiências tirar uma linda fotografia
mas aqui, sentada, viajo na emoção alheia
com malas de sentimentos pronta à embarcar."